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Confira as notas divulgadas ao público pelo jornalista

Já está nas bancas o novo número do JP. Veja as chamadas:


Capa JP 546

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O desafio da mineração no Pará é o tema do novo Jornal Pessoal

Arte: LuizPê

Arte: LuizPê

 

A edição de nº 545 chega hoje às bancas de Belém. Confira as chamadas:

HISTÓRIA

A farsa, um século depois

O Pará não conseguiu responder ao desafio que a crise da borracha lhe impôs, um século atrás. Não vai resolver os problemas que o ciclo dos minérios está lhe impondo agora. Sem líderes e ideias, parece condenado a repetir o drama. Agora, como farsa.

E mais:

  • JATENE TENTARÁ A RELEIÇÃO
  • DIÁRIO DO PARÁ: JORNAL POLÍTICO
  • O FIM DE ALLENDE 40 ANOS DEPOIS

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O tiro de largada

Reproduzido do Observatório da Imprensa, de 10 de setembro de 2013.

Por Lúcio Flávio Pinto

A edição de aniversário de 31 anos do Diário do Pará circulou, no cabalístico dia 25, com 320 páginas. Não há indicação sobre esse volume na primeira página, como é praxe na imprensa, nem em qualquer outro espaço do jornal do senador Jader Barbalho. É preciso contar página por página, fazendo a conversão das páginas tablóides, em formato menor, para o formato standard (que têm o dobro de tamanho).

A imprensa paraense ainda não respeita suficientemente os seus leitores para prestar-lhes a informação correta. O Diário preferiu retirar da sua capa a numeração total das páginas. Seu inimigo, O Liberal, da família Maiorana, optou por manter a manipulação: apregoa na capa que sua edição daquele mesmo domingo tinha 220 páginas, contando as dos suplementos como se fossem em formato grande. Feita a conversão, verifica-se que o número correto é o de 182 páginas.

Também ainda é prática da imprensa paraense avançar sobre anunciantes potenciais para levá-los a programar suas publicidades reforçadas para edições especiais, como as de aniversário (além de outras típicas de caça-níqueis). A edição de aniversário do Diário não contou, porém, com qualquer peça do governo do Estado, que, como entidades públicas e privadas, costuma responder presente a essas chamadas especiais Nem, evidentemente, da sua aliada, a prefeitura de Belém, igualmente controlada pelo PSDB.

O único anúncio fornecido por um órgão ligado indiretamente à administração estadual foi do Banco do Estado do Pará. A direção do Banpará teve o cuidado de não saudar o aniversariante, como seria de praxe. Apenas fez propaganda do sorteio de brindes entre seus clientes da conta-poupança. Como se fizesse uma veiculação rotineira, não de aniversário. Além do Banpará, a outra presença estadual foi a do secretário especial de promoção social, Alex Fiúza de Melo. O jornal publicou um artigo dele.

Declaração de guerra

No mesmo domingo 925/8), o gabinete do governador fez anúncio de meia página em O Liberal, congratulando-se pela liberação da pecuária do Estado da febre aftosa. O contraste tem um significado claro: o governo do tucano Simão Jatene deixou de ser apenas adversário do cacique do PMDB no Pará; agora eles são inimigos. E o grupo de comunicação da família Maiorana passou de aliado a parceiro. Ambos os lados se preparam para a guerra que já estão travando e se intensificará até a eleição do próximo ano. Imprensa e política mais uma vez esquecerão que deviam formar corpos distintos para se agrupar em uma bipolaridade na disputa pelo poder local, que tem sido uma das marcas mais constantes (e negativas) da ação da elite paraense. Quem for podre que se quebre.

Nem sempre foi exatamente assim. A polaridade foi menos aguda em outros momentos. Mesmo sendo criticado, o chefe do poder executivo (aquele que mais poder detém, sobretudo por ter a chave dos cofres públicos) contemporizava o tratamento. Deixava sempre a porta entreaberta para mais um dos surpreendentes (embora constantes) rearranjos políticos. Inimigos da véspera se congraçavam no dia seguinte, despojados da memória crítica do passado.

Ser completamente marginalizado da propaganda oficial nunca foi um hábito comum para os Maiorana. Mesmo Jader Barbalho, que se tornou o inimigo número um da segunda geração da família, depois da morte do fundador do império das comunicações, Romulo Maiorana, em 1986, acabou tendo que programar publicidade do Estado nos veículos do grupo em seu segundo mandato (1991/95).

Para um político pragmático como ele, não havia alternativa: a TV Liberal é afiliada à Rede Globo e O Liberalainda era, disparado, o líder do mercado de jornais impressos. Todos os veículos foram usados para tentar impedir a vitória de Jader na eleição de 1990. Derrotados, sabotaram o início da sua gestão. Brindados com anúncios, foram mudando de posição conforme a ressonância das moedas no caixa da empresa. Jader concluiu seu governo sem problemas. E os Maiorana continuaram a receber generosa verba oficial.

Para o grupo de comunicação do senador, ser privado da principal fonte de faturamento, que é a publicidade oficial, não é uma situação nova, mas constitui sempre um grande desafio. Seja pela programação oficial, através da agência credenciada, ou por vias oblíquas, que não são contabilizadas, a grande imprensa paraense sempre foi dependente do governo. Mesmo aquela que às vezes se apresentava como crítica ou até abertamente oposicionista.

Durante muito tempo, uma das vias de sustentação era a Imprensa Oficial. Seus dirigentes compravam papel para imprimir o Diário Oficial e para cedê-lo, clandestinamente, ao jornal amigo. E assim eram mantidas outras formas de favorecimento, como o oferecimento de serviços públicos gratuitos ou a contratação de jornalistas que seus empregadores remuneravam em padrão próximo da indecência.

Tendo resistido a períodos excepcionalmente lentos de privação da publicidade do governo, os dirigentes do grupo RBA sabem que essa resistência tem limites. Dietas magras e mais longas podem ameaçar a sobrevivência do veículo de comunicação, ainda que ele tenha encontrado (e inventado) outros mecanismos de faturamento, que lhe proporcionam maior grau de autonomia.

O artigo que o senador Jader Barbalho escreveu para a edição de aniversário do seu jornal tem esse componente de preocupação embutido na sua retórica analítica, combinando o interesse particular (que, nele, é empresarial e político) com a defesa da causa pública. Alega o senador que não haverá saída para a situação ruim vivida pelo Pará enquanto “o ‘modus operandi’ de governar cheirar a vigarice, enquanto a preguiça dominar os meios públicos, ou enquanto a ação entre amigos for promovida pela propaganda que retira o dinheiro público que deveria ser usado na educação, saúde, segurança e na infra-estrutura do nosso Estado”.

Já em campanha, o dono do jornal proclama: “O ciclo dos governos da propaganda milionária e do descaso tem que acabar”. Cada cidadão paraense consciente responderia que sim. Mas perguntaria se o novo governo que se seguisse não retomaria essa prática que o senador peemedebista condena, na condição de oposicionista, mas não seguiu nos dois governos que comandou.

De fato, os grandes acontecimentos registrados no Pará nos últimos 20 anos, tornando-o destinatário de alguns dos maiores investimentos – públicos e privados – realizados no Brasil nesse período, com dimensão mundial (como a expansão da exploração mineral em Carajás, o maior investimento privado em curso no planeta), não tiveram tradução social e mesmo econômica. Daí o Estado ser o terceiro mais violento do Brasil. “Temos o pior município do país em desenvolvimento humano. O arquipélago do Marajó, antes uma atração internacional, tem 12 dos 50 piores lugares sem perspectiva de futuro para o país”, arrola o senador.

São realidades acusatórias, que tornam fantasioso o discurso do “Novo Pará” apregoado pelos dois governadores tucanos que ocuparam o poder estadual ao longo de 16 desses 20 anos, prolongados por quase três no novo mandato de Jatene. Realidade não alterada pelos quatro anos de Ana Júlia Carepa, que Jader ajudou a colocar no governo, integrante do mesmo partido, o PT, ao qual pretende se aliar para a disputa de 2014.

A declaração de guerra implícita na ausência do governo do Estado à edição de aniversário do Diário do Pará, com a resposta dada por Jader, modulada pela sua sagaz preocupação em não deixar emergir seu interesse particular na conjuntura, serve de preliminar à guerra que já começa a ser travada entre os dois maiores pretendentes ao governo do Pará.

Disputa pelo poder

O governador elegeu o grupo Liberal como sua arma de combate, mas ao mesmo tempo voltou à liça o jornal O Paraense, que sempre emerge em períodos de maior agitação política ou já em plena campanha eleitoral para fustigar Jader Barbalho. Depois de longa hibernação, o jornal retomou sua atividade em julho, com farta distribuição gratuita na portaria de prédios em Belém. É indício de que a linguagem vai ser violenta e panfletária, além da medida do que pratica o grupo Liberal, embora sempre raivoso quando se trata de apontar a corrupção do líder do PMDB.

Agora, o alvo é também o filho de Jader. Helder Barbalho já tem no seu currículo um mandato de deputado federal e dois como prefeito do segundo mais populoso município, Ananindeua. Mas não conseguiu fazer o seu sucessor. Teve que amargar a volta de Manoel Pioneiro num terceiro mandato, embora descontínuo, como exige a lei. Atenuou essa dura derrota com uma vitória discreta na eleição fora de época de Marituba, também na área metropolitana de Belém, município que teve cinco prefeitos em seis meses.

Agora parece não haver mais dúvida de que Helder será o candidato do PMDB ao governo e, na dobradinha com o PT, o partido terá o cabeça de chapa, mesmo que o ainda não totalmente definido coligado não aceite. O grupo Liberal e os tucanos batem na tecla de que os petistas precisam ter chapa própria e que o deputado federal Cláudio Puty vai disputar a indicação para o governo. Os peemedebistas sustentam que Puty negou essa hipótese em encontro com Jader, mas tudo é possível até a definição do PT.

Jader conta com aliados no governo federal e na representação estadual do PT para assegurar a combinação que reservaria aos petistas o cargo de vice-governador e a vaga de senador para Paulo Rocha. No entanto, prepara-se para caminhar sozinho, se necessário. Montou e está expandindo uma estrutura de suporte para o filho, contando com veículos de comunicação que já levam um programa de rádio de Hélder ao interior do Estado e programa de televisão que, veiculado no horário gratuito do TRE, aparece também na TV Liberal.

Como os desgastes de imagem não permitem mais que Jader dispute um retorno ao governo (que ele diz não pretender mais por opção pessoal), a imagem de Hélder é projetada como própria, autônoma, independente do pai, técnica, jovem, limpa. Justamente por isso o grupo Liberal repete monocordiamente que “filho de peixe, peixinho é”, relembrando como litania os casos de desvio de dinheiro público que envolvem Jader Barbalho.

Pela repetição em demasia desse catecismo, por enfraquecimento empresarial do grupo Liberal ou pelo grande desgaste da administração Jatene, essa prédica moralista não parece mais ter o mesmo efeito de antes. As principais empresas, sindicatos, representações corporativas, grupos de ensino e os demais poderes constituídos fizeram anúncios na edição de aniversário do Diário do Pará.

Vinte prefeitos mostraram as caras (e não apenas do PMDB), principalmente no nordeste, sul e sudeste do Estado, os principais redutos de Jader Barbalho, como o de Santarém. Até mesmo o presidente da Assembleia Legislativa, Márcio Miranda, cujo nome chegou a ser especulado como pretendente ao governo, patrocinou uma página de anúncio ostensivo.

São dados que sugerem novidades no quadro pré-eleitoral de mais uma disputa pelo poder, embora confirme um brocardo popular que pode se repetir mais uma vez: tudo muda para tudo ficar como está.

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Edição comemorativa dos 26 anos do Jornal Pessoal já está nas bancas

Arte de LuizPê

Arte de LuizPê

Jornal Pessoal, editado por Lúcio Flávio Pinto, sob a edição de arte de Luiz Pinto, completa 26 anos em setembro. Da primeira edição, de 1987, marcada pela premiada cobertura do assassinato do ex-deputado estadual Paulo Fonteles, até os dias de hoje somam-se 544 números. Uma visada sobre a história do tempo presente na Amazônia.

Ainda é tempo de os leitores enviarem suas mensagens ao editor do jornal, a quem os moderadores deste blog felicitam pela tenacidade em manter um veículo alternativo que faz a diferença na imprensa do Pará.

A edição de nº 544 já está nas bancas. Confira as chamadas.

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Lúcio Flávio Pinto pergunta a quem vai beneficiar a nova frente de extração do minério de ferro de Carajás

Arte: LuizPê

Arte: LuizPê

 

A edição de nº 543 do Jornal Pessoal chega às bancas nesta sexta-feira, 16. Veja as chamadas:

CARAJÁS

A China é aqui

A Vale começou a preparar a exploração da melhor jazida de minério de ferro do planeta. Para favorecer os compradores, principalmente a China, ou enriquecer paraenses e brasileiros? Até agora, estes perdem de goleada para aqueles.

E mais:

  • CANCELADO CONTRATO DO JATINHO MAIORANA
  •  SANTARÉM NÃO É A CAPITAL DE ESTADO
  •  BELÉM DA MINERAÇÃO NO LUGAR DA BORRACHA

* No próximo número, o Jornal Pessoal completará 26 anos de vida. O jornalista Lúcio Flávio Pinto convoca os leitores a participar da edição comemorativa, escrevendo sobre quaisquer temas de interesse público, principalmente sobre a situação da imprensa no Pará. Participem. Enviem seus textos para jornal@amazonet.com.br 

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Veja as chamadas do Jornal Pessoal que chega às bancas nesta quinta

Arte: LuizPê

Arte: LuizPê

 

IMPRENSA

O poder do poder

Diário do Pará e O Liberal se igualam num ponto: abusam do poder de abusar da opinião pública. Os dois inimigos mortais não respeitam seus leitores. Usam todos os recursos na guerra que travam entre si e na manipulação da sociedade.

E mais:

  • A FERROVIA PELA METADE
  • UMA HISTÓRIA DO RIOCENTRO
  • A CABEÇA DE PAULO

 

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Entrevista com Lúcio Flávio Pinto

Reproduzido da edição de nº 541 (2ª quinzena de julho de 2013) do Jornal Pessoal.

O lado pessoal do jornalista na perspectiva feminina

Minha ideia inicial de fazer desta edição uma genuína edição de férias de julho frustrou-se. A conjuntura não permitiu. Mas reservei este espaço para uma matéria mais apropriada à saison. São as respostas que dei a questionário formulado por jornalistas que constituem a base do blog Somos Todos Lúcio Flávio Pinto, espaço precioso para a defesa do meu jornalismo e do jornalismo independente em geral. Espero que os leitores dividam comigo o prazer de atender as abordagens femininas, que constituem uma perspectiva muito especial das questões.

SÍLVIA SALES

Que paixão te diverte? (Não vale citar família, trabalho, jornalismo, Amazônia, tá?)

Coração à parte, em primeiro lugar, ler. Um dos raros objetos que me prendem é o livro, feito de matéria e espírito como nenhum outro. Minha ligação ao livro é intrauterina. Mamãe lia “Quo Vadis”, do Henryk Sienkiewicz, quando sentiu meus empurrões lá dentro (já saí para o mundo com fome, disse ela). Como estava em cena o romano Lucius Flavius, levei esse nome. A outra paixão é a música, já em escala menor. Algumas paixões ficaram pelo caminho, como a prática de esportes (sobreviveu a natação) e o cinema. Mas ainda adoro andar. Não como atleta, mas como voyeur. Este é outro prazer sensorial e sensual: o do olhar. Só superado por outra paixão superior: pensar. Adoro ver e meditar. As caminhadas e a natação são a melhor maneira de praticar ambas paixões.

Tu te consideras um homem vaidoso? Onde está manifestada essa vaidade? Desenvolve.

Sinceramente, sou vaidoso numa dosagem normal – e decrescente. Já me importei com roupa. Há muito tempo não me importo mais. E com aparência, da qual, com o aval dos mais de 60 anos, já não preciso me preocupar. O excesso de vaidade tira a virilidade do homem. Não em sentido estrito, ou restrito. Mas num sentido muito amplo. A vaidade é um dom natural na mulher, que a complementa e sublima. Já ao homem imbeciliza. Tira-lhe a autocrítica e até, nos casos extremos, a capacidade de raciocinar. Vi homens inteligentes se apagarem ao menor elogio, mesmo o descaradamente utilitário – ou falso.

Paixão é a filha gostosa da insensatez?

Quanto mais insensata, mais gostosa fica. E vice-versa. Depois da fase em que os erros são aceitáveis e a margem de erro admite a insensatez, melhor mantê-la à distância. O homem maduro é aquele que alcança o maior grau possível de autonomia, de comando da sua vida.

Sobre os movimentos feministas no Brasil, qual a tua avaliação?

Inteiramente a favor. Recordo uma charge do Angeli do personagem machista, o Bibelô. Ele vê uma mulher linda na praia e faz a abordagem, ao estilo. Ela reage com um “não gosto de homem”. Ele completa: “Nem eu. Primeiro ponto em comum”. A mulher é a suprema criação divina. Mesmo quando faz tudo para negar isso.

Algum arrependimento?

Muitos. Tantos que não caberiam neste espaço. Mas quando a gente tem consciência do erro, arrepender-se é a melhor maneira de aprender e se corrigir. Por isso me exponho à correção de todos aqueles que percebem e apontam meus erros. Ainda espero ser um pouco melhor do que sou. Se não conseguir, autorizo que coloquem na minha lápide: ele tentou.

RAYZA SARMENTO

Qual a sua avaliação dos cursos de jornalismo no Estado do Pará, a partir de sua experiência como docente? O que deve ser aprimorado para que os profissionais em formação consigam refletir e escrever com mais propriedade sobre a Amazônia?

Só escreve bem quem lê. Lê em geral e de tudo. Mas lê, em especial, literatura. Para um jornalista, especificamente, mais importante até do que ler os clássicos, indispensáveis por qualquer demanda, é ler textos com narrativas e descrições. Bons thrillers e literatura B, que refletem o cotidiano, são essenciais. Assim como ler as publicações da imprensa periódica. E se exercitar na criação de textos libertos das amarras dos manuais.

O problema é que tanto o jornalista já formado quanto o estudante de jornalismo leem pouco – e costumam ler mal. O princípio norteador da leitura deve ser o prazer, o desfrute, o deleite mais do que a preocupação – que costuma ser obsessiva – de aprender logo. O sujeito lê e ficha ao mesmo tempo. Assim, não pode haver leitura lúdica, passo necessário para a lucidez. Com prazer, o futuro jornalista desenvolve sua curiosidade e opta por seus métodos de investigação. O mundo passa a ser o seu universo. E ele, um auditor do universo.

Além  de uma mudança profunda nos currículos, é preciso separar o curso do jornalismo do curso de comunicação. Autônomos, ambos renderiam mais: para o aluno e para a sociedade.

SOCORRO VELOSO

Nos momentos em que você não está dedicado ao Jornal Pessoal e aos processos judiciais (imagino que são poucos), o que mais gosta de fazer?

Ler, ouvir música, andar pela cidade, conversar com amigos, visitar livrarias.

Tive a felicidade de conhecer sua mãe, dona Iraci, uma senhora simpática, que ajudava a localizar as edições antigas do JP, quando alguém – como foi o meu caso – estava precisando. Seu pai, Elias, teve uma história de vida muito interessante, e pontuada por momentos dramáticos. Qual o legado de seus pais para a sua formação pessoal e profissional? 

Mamãe foi o esteio de todos os seus sete filhos. Uma pessoa de rara bondade, generosidade e humildade. Só com o tempo fomos percebendo a profundidade da influência que ela exerceu sobre cada um de nós. Como no caso da leitura. Esse hábito sempre foi associado ao papai, que formou sua biblioteca e lia muito. Antes de aprender a ler eu já avançava sobre os livros dele. Um, em particular, foi importante: o belo dicionário Lello Universal. As ilustrações me atraíram. Um dia, estava com aquele volume, grande e pesado, sobre as perninhas.

Mamãe me disse depois que sentou ao meu lado e passou a ler os primeiros verbetes. Quando chegou ao ábaco, pedi para repetir. Fiquei maravilhado com o aparelho primitivo de calcular dos chineses, que perdurou como a forma mais rápida de fazer conta até o surgimento do primeiro computador, nos Estados Unidos, em 1946.

Dou esse exemplo sobre a atenção de uma pessoa simples sobre as coisas do espírito ao alcance das suas crias. Ela inspirava e orientava como atos naturais, talvez para se manter à sombra do chefe da família numa época ainda patriarcal. Deve ter avançado sobre a biblioteca do papai da mesma maneira que eu. Mas eu pude me expandir, ela não. Aí entra a forte influência do meu pai, tanto em sentido positivo quanto negativo.

Papai foi uma pessoa brilhante, que conseguiu desperdiçar todos os talentos que a vida lhe concedeu. Dilapidou o patrimônio – material e espiritual – que ele próprio construiu. Consegui ver seu lado bom e seu lado ruim. Ele me apresentou bem cedo ao mundo. Eu adorava sair com ele de jipe e percorrer o interior, onde ele fazia campanha política. Ou participar das rodas de conversa com tanta e tão diferenciada gente. Foi ele que plantou a semente do jornalismo nos filhos. Foi uma personalidade fascinante.

Nas páginas do JP, você costuma refletir sobre as mazelas de Belém. O que de melhor e o que de pior a cidade representa hoje, em sua opinião?

A Belém do quadrilátero das mangueiras é a face melhor da cidade. A Belém da periferia é a sua contrafação. São partes distintas e paradoxais de uma mesma cidade. Ao crescerem sem se tocaram, criam um cenário favorável ao conflito, à violência, à dissipação do seu potencial. Belém está se tornando, por isso, uma cidade monstruosa. Já foi bom viver aqui.

Já pensou em doar seu rico acervo de livros, documentos, jornais e revistas, como fez o José Mindlin, por exemplo?

As condições que o Mindlin impôs à doação dificilmente serão repetidas no Brasil. Ele era um homem rico, influente e respeitado. Concebeu uma forma de destinação ao seu acervo que obrigou o destinatário da doação a investir – e muito – na criação de uma estrutura para abrigar os livros e documentos, no acatamento de uma entidade autônoma e eficiente para administrar esse patrimônio e outras condições que previnem a coleção Mindlin das mazelas comuns em órgãos públicos.

Certamente eu não conseguiria impor essas condições. Aliás, nem penso no assunto. Tenho com a minha biblioteca a relação que Eidorfe Moreira teve com a dele: é uma biblioteca pessoal. Quando morrer, provavelmente perderei o comando que exerço sobre ela. Por ser um espelho da minha vida, é uma biblioteca estritamente pessoal.

Você é o nome mais conhecido, celebrado e estudado da imprensa amazônica. É exemplo de coragem, integridade e profissionalismo para gerações de jornalistas como a minha, que entrou na Universidade nos anos 80. Como espera ser lembrado pelas futuras gerações?

Como o jornalista que perguntava sempre e não descansava enquanto não encontrasse as respostas. O único mérito que um determinado jornalista pode ter é saber fazer as perguntas certas no momento certo. E ser capaz de guiar sua curiosidade conforme o interesse público.

Agora, cá entre nós: tudo que você disse é areia demais para o meu caminhãozinho.

ROSE SILVEIRA

Quando você cita autores que foram importantes para a sua formação, a lista é sempre masculina. E as autoras? Quais fizeram ou fazem a sua cabeça?

Depois que fiz a lista, à base do vapt-vupt, percebi isso que você agora registra. Listas são sempre isso: uma lembrança de momento. São muitas as mulheres na minha vida, literariamente falando. A começar pela mais influente delas, a poeta americana Elizabeth Bishop, uma das minhas leituras de cabeceira. As cartas dela são fonte de aprendizado interminável. A poesia é única. Ela passou momentos em Santarém e escreveu a melhor poesia inspirada na cidade. Há Clarice Lispector, Cecília Meireles, Tereza Cesário Alvim, Adalgisa Nery, Mary McCarthy, Simone de Beauvoir, Simone Weil, Hannah Arendt, Anna Akhmátova. Há mais. Para depois.

Se a sua vida virasse um filme, que episódios não poderiam faltar?

Gostaria que um dia alguém me desse essa resposta objetivamente. Subjetivamente, as cenas decisivas sempre me vêm à memória. Não são poucas. Gostaria de lembrar apenas duas. Uma, foi a leitura do AI-5, no dia 13 de dezembro de 1968, na redação de “A Província do Pará”. Eu estava editando o jornal naquele dia. Peguei o texto do telegrama, fui para o bar do Chico, pedi um café e um bolo e fiquei a ler. Li e reli. Chocado, pedi mais um café (tomava uns 30 por dia nessa época) e fiquei a meditar. Eu tinha sido um participante do ano que não terminaria, me dividindo entre a universidade, com sua ocupação, e o jornal. Concluí que não havia mais lugar para mim depois do AI-5 em Belém do Pará. No dia 1º de janeiro de 1969 viajei para São Paulo. Achava que ali estaria o olho do furacão. Achei certo.

A outra cena foi em São Paulo, dois anos depois. Eu entrevistava o engenheiro e empresário Eduardo Celestino Ribeiro, paulista poderoso e influente, na antiga sede da Federação das Indústrias, no viaduto Maria Paula. Além de ser dono da Cetenco, Celestino tinha fazenda de gado no sul do Pará. E me falava sobre seus planos para a Amazônia, que consideravam indispensável derrubar a floresta para a formação de pastagem. Enquanto ele falava, meu olhar passou por ele, atravessou a janela do escritório e foi bem longe. Celestino era refinado, inteligente e quase culto. Se ele dizia aquelas coisas, o que não fariam os bugres bandeirantes paulistas do século XX?

Foi ali que decidi deixar a carreira acadêmica, como aluno de mestrado em ciência política de Oliveiros Ferreira e voltar para a minha terra. Minha Amazônia não era a mesma de Celestino. A dele, para se estabelecer, implicava a destruição da Amazônia que estava na minha raiz, na minha alma. Decidi entrar de vez no combate.

Falando em cinema, que filmes foram fundamentais na sua vida?

“Trinta anos esta noite”, “Quem tem medo de Virgínia Woolf”, “Os Indiferentes”, “Aquele que sabe viver”, “O silêncio”, “A velha dama indigna”, “Rio vermelho”,  “Ivã, o terrível”, “Vidas secas”, “Deus e o diabo na terra do sol”, “O desprezo”, “Blow-up”, “Alexander Nevski”, “Paixão de Ana”, “Marcelino, pão e vinho”. E outros mais.

Se você pudesse eternizar um momento na sua vida, qual seria?

O nascimento do meu primeiro filho, a Juliana. É quando o ser humano tem a ilusão de ser eterno. Ilusão que se prolonga pelos outros filhos – quatro, no meu caso – e os netos – também quatro, por ora.

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