Um Brasil ao mar

Publicado na coluna Cartas da Amazônia, do Yahoo! Notícias, em 31 de maio de 2012.

Por Lúcio Flávio Pinto

A antiga Companhia Vale do Rio Doce comemorava cada nova década de vida com um álbum impresso, versão renovada e ampliada do primeiro volume, no qual contava sua história até aquele momento. Parece que desta vez não haverá álbum. Parece que não haverá nada. Os 70 anos da CVRD passarão em brancas nuvens.

É um contraste com a abundante propaganda veiculada pela companhia através da imprensa. A Vale nem precisava fazer tanto anúncio. Ela vende principalmente minérios, cujo valor é calculado por milhões de toneladas. Não há muitos compradores no mercado. Os contratos de venda são de longo prazo, valendo por vários anos.

O vendedor não precisa convencer ninguém no varejo. Mesmo porque, no caso, tem o filé-mignon, o minério de ferro de Carajás, o melhor que há, sem concorrente à altura.

As intensas e sistemáticas campanhas publicitárias que a Vale faz durante o ano inteiro tem objetivo institucional e não comercial. Ela vende à opinião pública a imagem de empresa responsável, preocupada com os impactos socioambientais gerados pela sua atividade, que paga bem, na qual é um prazer trabalhar, que apoia as iniciativas culturais, está ao lado das muitas comunidades com as quais convive e é de grande valor para o Brasil.

O resultado é que foi se tornando o maior anunciante particular da mídia brasileira. Haveria coerência de estar nessa condição: afinal, ela é a maior empresa privada do país (e do continente), a segunda maior mineradora do mundo (e a maior em minério de ferro, o minério mais usado pelo homem), a 31ª companhia mundial, a que mais exporta no Brasil e a que mais gera saldo de divisas para o país.

Todas essas grandezas parecem ter feito a empresa se afeiçoar cada vez mais aos elogios de uns e à subserviência de outros; e reagir negativamente às avaliações críticas ou mesmo à autonomia de quem não segue a sua cartilha na hora de dar sua opinião. O que é capaz de explicar o silêncio constritivo da Vale diante de duas importantes datas em cronologia sucessiva: os 15 anos da sua desestatização, ocorrida em 6 de maio de 1997, e os 70 da sua criação, neste 1º de junho.

Talvez pelo seu peso no faturamento das empresas jornalísticas, a mídia não aproveitou as duas datas para fazer um balanço dessa trajetória, como era do seu dever. A própria empresa preferiu adotar a tática do silêncio, abandonando as práticas do passado. Nada de fornecer as informações devidas, como nos álbuns anteriores, para atrair e estimular o interesse da opinião pública. A Vale quer apenas coro uníssono, não contracantos.

Já está bem delineado o desvio de rota da antiga estatal. Ela foi criada em 1942 para garantir o fornecimento de matérias primas de origem mineral aos países aliados, que combatiam a Alemanha nazista. Para que pudesse desempenhar essa tarefa, até os Estados Unidos apoiaram a transferência da rica jazida de Itabira, em Minas Gerais, que pertencia ao milionário americano Percival Farquhar. Colocar a mina em operação era, naquelas circunstâncias, missão de Estado, não de indivíduos.

Desincumbindo-se da missão, a CVRD se tornaria uma empresa típica de exportação se, por pressão dos mineiros, não tivesse passado a atender também o mercado interno. A abundância de ferro permitiu a ampliação do parque siderúrgico nacional. A exportação de matéria prima se combinaria com a indução à industrialização de base.

Essa combinação seguia seu curso (semelhante ao do café na formação do parque fabril de São Paulo) até a descoberta da maior província mineral do planeta, em Carajás, no sul do Pará, no final dos anos 1960. A associação da Vale ao Japão, que se iniciara timidamente, foi incrementada.

O teor de hematita pura no minério de Carajás e a existência de um porto de águas profundas em São Luiz do Maranhão, que podia ser alcançado por uma ferrovia de 900 quilômetros de extensão (pela qual circula atualmente o maior trem de carga do mundo), vindo do interior, e navios de grande tonelagem do mercado oceânico, viabilizaram um novo circuito de atendimento à Ásia.

Primeiro país beneficiado por essa nova realidade, o Japão eliminou a dependência que tinha da Austrália, passou a receber minério com o dobro do teor de ferro australiano e por um preço equivalente ao do antigo fornecedor. Não surpreende que os japoneses tenham passado a comprar da Vale em escala crescente. E a China tenha seguido-lhe os passos, em volumes cada vez maiores, tornando-se, hoje, a maior cliente da Vale e responsável pela aquisição de 60% da produção de Carajás.

Com o salto dos preços do minério de ferro a partir de 2001 e a escalada de consumo da China em 2005, tornando-se a Ásia o destino da maior parte do melhor minério que há na Terra, os gigantescos números dessas transações impressionam e entusiasmas. Mas também assustam. Se há motivos para comemorar agora, amanhã não será a vez de chorar lágrimas de sangue pelas riquezas naturais que se foram de vez e não serão substituídas, já que minério não dá duas safras?

Uma composição da música popular brasileira alerta: “o que dá pra rir dá pra chorar, questão só de peso e de medida”. No final dos anos 1950, o jovem economista Celso Furtado, dos mais brilhantes intelectuais que o Brasil já teve, cunhou a expressão “feitorias de exportação” para bases logísticas, como as que se multiplicam no Brasil, voltadas para além dos oceanos. A primeira foi a do açúcar. A maior, a do ferro, hoje.

Junto com as riquezas, vão também os projetos e os sonhos. Como os do avanço da industrialização brasileira para uma etapa de criação de valor maior do que a atual. Talvez por isso a capitã da maior das feitorias de exportação prefira que as datas importantes passem em silêncio. Mesmo que sejam suas datas.

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Entrevista: Lúcio Flávio Pinto comenta o Prêmio Vladimir Herzog

Publicado no Diário do Pará, caderno Você, edição de 1º de junho.

“É UM MOMENTO VITAL PARA MIM”

Por Elias Ribeiro Pinto

Na coluna de ontem, “Lúcio recebe Prêmio Vladimir Herzog”, informei ao leitor a respeito da premiação do jornalista Lúcio Flávio Pinto. Por “sua trajetória corajosa e trabalho exemplar à frente do Jornal Pessoal”, segundo a comissão organizadora, “motivo de orgulho para todos os jornalistas brasileiros”, Lúcio “será laureado”, ao lado do jornalista Alberto Dines, em outubro, em São Paulo, no Teatro da Universidade Católica. Encaminhamos três perguntas ao editor do JP.

Lúcio, qual o sentimento ao receber a notícia dessa premiação, significativa não só pelas entidades que a concedem, mas também pelo fato de o prêmio ter o nome de um colega que lhe traz recordações pessoais e, para o país, ter um significado histórico, de que você também foi testemunha?
Lúcio – Sempre pensei nessa premiação. O que a torna mais valiosa é não precisarmos nos inscrever. A última vez em que me habilitei a um prêmio foi em 1984, ao Esso, que ganhei com uma matéria especial sobre o Projeto Jari. O que veio a partir daí foi espontaneamente, como agora. O Prêmio Vladimir Herzog é especial em função do patrono. Eu estava no culto ecumênico celebrado por ele na catedral da Sé, em São Paulo, uma semana depois que ele foi morto, em 1975. Foi um daqueles momentos que a gente percebe ser histórico de imediato: pelo clima emocional, pela quantidade de gente, pelo desafio à ditadura, que estava no seu apogeu. Via-se que a morte de Herzog não fora em vão, apesar da sua brutalidade. A história começou a mudar ali. Receber a honraria com o nome dele é dignificante.

Você se considera em boa companhia tendo Alberto Dines “ao seu lado” na premiação?
Lúcio – Tivemos um atrito sério no passado recente. Mas o apoio que o Dines me tem dado nos últimos tempos apaga esse incidente e me faz projetar a memória para o futuro. Sinto que houve uma autêntica conversão e que ele se tem empenhado com sinceridade e denodo em juntar seu nome e os espaços de que dispõe em favor do jornalismo que faço e da pessoa que sou. Aos 80 anos, Dines impressiona pela vitalidade e a vivacidade. E a mim, por essa solidariedade incondicional, que atravessa o enorme espaço – geográfico e histórico – entre o Sul e o Norte.

A notícia do prêmio foi efusivamente festejada por seus leitores, conhecedores dos processos que você enfrenta, obstáculos, por sua vez, que colocam em risco a circulação do “Jornal Pessoal”. Capaz de esses leitores irem em caravana a São Paulo a fim de acompanhar a premiação. Você estará lá?
Lúcio – Farei tudo para desta vez estar presente. É um momento vital para mim. Sinto que ultrapassei o limite das minhas forças na resistência aos ataques e no contra-ataque a esses integrantes de uma elite predadora, como os Maioranas, e saqueadora, como o finado Cecílio do Rego Almeida e seus seguidores, incluindo os herdeiros, que se habilitaram na ação do pai. Meu modo de ser é de caboclo. Os atos solenes e as multidões me assustam um pouco. A notoriedade, mesmo que restrita, também. Mas é maravilhoso ter a companhia de tanta gente boa e merecer sua imediata resposta. O espaço da PUC é tão grande e acolhedor quanto o meu coração.

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JP 514 vai às bancas nesta quinta

Capa do JP 514. Criação e Arte: LuizPê

Nesta quinta, 31, chega às bancas a edição  de nº 514 do Jornal Pessoal, primeira quinzena de junho. Confira as manchetes:

CELPA

A explosão próxima

Uma surpresa: o governo do Estado tem que pagar prestação da dívida vencida e não paga pela Celpa. Quase R$ 3 milhões saem dos cofres públicos. A continuar assim, e com o silêncio geral, qual será a próxima má surpresa no processo de recuperação judicial da empresa?

E mais:

  • Vale: datas passam em branco
  • Tribunal não responde à Carta Aberta
  •  Cheia no Amazonas e sol à margem

Nas bancas de Belém a R$ 5.

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Lúcio Flávio Pinto e Alberto Dines ganham o Prêmio Vladimir Herzog 2012

Lúcio Flávio Pinto em foto de Miguel Chikaoka.

A comissão do Prêmio Vladimir Herzog Especial 2012 acaba de conceder a honraria aos jornalistas Alberto Dines, editor do Observatório da Imprensa, e Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal. Segundo a curadora desta 34ª edição, Ana Luisa Zaniboni Gomes, em carta enviada a Lúcio Flávio em 28 de maio, o nome dele foi indicado por unanimidade e em caráter excepcional, pois o prêmio normalmente é atribuído a um profissional da imprensa que se destaque na luta pelos direitos humanos e pela cidadania.

Alberto Dines, que acaba de completar 80 anos de idade e 60 de profissão, é um dos mais atuantes e importantes profissionais da imprensa do país. À frente do OI, ele faz a crítica permanente da atuação da mídia no Brasil e abre espaço à fala de profissionais, como o próprio Lúcio Flávio, no programa televisivo OI na TV. Desde o ano passado, Dines tem dispensado atenção especial à luta de Lúcio Flávio diante da censura que lhe é imposta pela justiça do Pará.

A propósito, este ano, em agosto, o Jornal Pessoal completa 25 anos de criação.

A cerimônia de entrega da láurea será em 28 de outubro, no Teatro da PUC-SP, o TUCA.

Para saber mais sobre o Prêmio Vladimir Herzog, clique aqui.

Segue o conteúdo da carta enviada pela comissão organizadora da premiação ao jornalista paraense:

São Paulo, 28 de maio de 2012

Prezado jornalista

Lúcio Flávio Pinto

É com grande alegria que levamos a seu conhecimento a notícia de que seu nome foi escolhido para receber o “Prêmio Vladimir Herzog Especial 2012”. Este ano, excepcionalmente, haverá dois premiados nessa categoria. Ao seu lado, será laureado o jornalista Alberto Dines, que sabemos admirador de seu trabalho.

A escolha de seu nome foi unânime entre os componentes da Comissão Organizadora do Prêmio Vladimir Herzog. Sua trajetória corajosa e trabalho exemplar à frente do Jornal Pessoal são motivo de orgulho para todos os jornalistas brasileiros.

As entidades representadas na Comissão Organizadora acompanham com preocupação as pressões que se opõem ao seu trabalho jornalístico. Causa consternação que, 24 anos depois de promulgada a Constituição Federal de 1988, esse tipo de cerceamento ainda medre no país.

Sabemos que seu trabalho à frente do Jornal Pessoal combate justamente esse Brasil atrasado e autoritário. É exemplar o seu esforço para manter uma publicação independente que contraria interesses hegemônicos.

É com a expectativa de seu aceite que, desde já, esperamos tê-lo conosco na cerimônia de premiação, no próximo dia 23 de outubro, terça-feira, às 19h30, no Teatro da Universidade Católica – TUCA (Rua Monte Alegre, 1024, São Paulo).

Obrigado, Lúcio Flávio Pinto, pelo exemplo e pela motivação que sua atuação transmite à nossa sociedade. Receba, por meio desta carta, o nosso reconhecimento, nosso apoio e nossa gratidão.

Subscrevemo-nos, honrados.

Atenciosamente

Ana Luisa Zaniboni Gomes

Curadora da 34ª edição, em nome da Comissão Organizadora

Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo ‐ ABRAJI

Associação Brasileira de Imprensa – Representação em São Paulo – ABI/SP

Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil – UNIC Rio

Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo

Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP

Federação Nacional dos Jornalistas ‐ FENAJ

Fórum dos Ex‐Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo

Instituto Vladimir Herzog

Ordem dos Advogados do Brasil ‐ Seção São Paulo – OAB/SP

Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo

Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo

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O lançamento do livro de LFP em Santarém

Lúcio Flávio (de camisa xadrez azul) no dia do lançamento.

Lúcio Flávio Pinto lançou o livro Grileiros mais juízes: ameaças às terras do Pará, no último sábado (26), no estande do jornal O Estado do Tapajós, no Salão do Livro de Santarém. Aqui ele aparece entre os convidados Bianca Aguiar, Maria do Carmo, prefeita de Santarém, Celso Lima e o editor do jornal, Miguel Oliveira (de camisa verde).

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Extrapauta no blog

Lúcio Flávio nos pede uma divulgação extra e muito justa. Aqui vai:

Os amigos do jornalista Roberto Jares Martins pretendem editar um pequeno livro (uma plaquete, como diriam os acadêmicos) para lembrá-lo em novembro, quando completará 20 anos de morto. O livrinho será composto por fotos, desenhos, cartuns e textos de não mais do que 20 linhas (das laudas da época do Jares, no tempo da carochinha). Os amigos que quiserem escrever deverão lembrar algum episódio marcante da sua convivência com o homenageado. Uma história significativa, que contribua para definir a personalidade de Jares e demarcar sua memória. Ilustradores, desenhistas e fotógrafos poderão contribuir com imagens e fotos. O material pode ser enviado até 31 de julho para o endereço lfpjor@uol.com.br. Esperamos fazer uma homenagem à altura do que Jares representou para nós e a imprensa do Pará. Obrigado aos que aderirem à empreitada.

Lúcio Flávio Pinto

 

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Novo livro de Lúcio Flávio Pinto terá lançamento em Santarém

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