Em nova entrevista, LFP responde sobre sua formação intelectual, política, Comissão da Verdade e desigualdade social

A participação de hoje é da internauta Marly Gonçalves da Silva, que enviou ao jornalista Lúcio Flávio Pinto um questionário diversificado, que o blog reproduz na íntegra.

Marly Gonçalves da Silva – Quais são os intelectuais brasileiros que você mais admira  no campo da filosofia,  sociologia,  antropologia e  economia?

Lúcio Flávio Pinto – São tantos. Vou citar só os mais influentes na minha formação, muito eclética, mesmo quando, depois, entrei em conflito com eles (e incluo a literatura e o jornalismo, que me foram fundamentais; cito sem qualquer ordem): Herbert Baldus, Antonio Gramsci, Curt Nimuendaju, Nunes Pereira, Carlos Heitor Cony, Antonio Callado, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, José J. Veiga, Gilberto Freire, Euclides da Cunha, Gondin da Fonseca, Agripino Grieco, Darcy Ribeiro e por aí.

Marly – Daniel Cohn-Bendit, Vargas Llosa e Florestan Fernandes, em um determinado momento de suas vidas, fizeram a escolha pela política. Qual a tua avaliação a respeito? Já chegaste a pensar nesta possibilidade?

LFP – Quando completei 18 anos, meu pai começou a me pressionar para seguir a carreira dele, político desde a juventude. Achava que eu tinha condições de sucedê-lo e herdar seus votos. Desde então, até papai morrer, em 1985, cada eleição era uma guerra de braço não declarada entre nós. Cheguei a vacilar, até estimulando seus sonhos. Mas sempre recuei. Queria e acho que podia me tornar político. Mas o puder me impediu de dar o último passo no rumo da política partidária. Via como ela era praticada desde criança. Nossa casa sempre foi ponto de reunião e quase de comícios. A política me fascinava, mas não o ritual necessário para a iniciação. Nunca me filiei a partidos e acabei por desistir de me tornar político. O jornalismo absorveu minhas energias.

Marly – O que esperas como resultado dos trabalhos da Comissão da Verdade? Não te parece decepcionante a mobilização da sociedade? E a cobertura da mídia ao depoimento do Ustra?

LFP – Como custa caro a verdade no Brasil, não é mesmo? Outros países menos cordiais do que o nosso chegam a ela com mais facilidade do que nós. Facilidade, em termos: há realmente um desejo da sociedade de encarar os fatos e, usando-os como marcos da trilha, chegar à verdade. Como essa nunca foi uma matéria-prima à qual nossas elites se afeiçoam e valorizam, ela coloca pedras sobre as verdades insepultas e manda rezar a missa fúnebre, como se o indigitado já estivesse morto. Verdade é coisa morta no Brasil. Se incomoda, ninguém quer tirá-la de sob suas tumbas utilitárias. Empolgado pela legenda da alegria, da cordialidade, do jeitinho e do gingado, o brasileiro olha para a frente como se só tivesse futuro. Zweig caiu no conto e deu-se mal. Já o Ustra deu-se bem. Mesmo sem convencer, o que diz – mais no seu livro A verdade sufocada do que no depoimento –não foi adequadamente contraditado.

Marly – O sociólogo brasileiro Edson Passetti, editor da revista Verve, define o nosso “planeta favelas” como “campos de concentração a céu aberto”. O que achas dessa definição? Onde vamos parar com tamanha desigualdade social e segregação espacial?

LFP – Nunca entrou e circulou tanto dinheiro pelo Brasil. Nunca foi tal a grandeza econômica do país. Nunca, entretanto, os brasileiros estiveram tão endividados. E nunca estiveram com suas prestações tão atrasadas. Riqueza e crédito podem ter uma relação saudável, se há poupança efetiva. Quando não há, empurra-se a coisa com a barriga e manipula-se a realidade. Segundo os órgãos oficiais que medem a riqueza nacional, quem ganha até 1,2 mil reais por mês é classe média. Daí a maior façanha do governo petista ser a promoção dos pobres a classe média e dos miseráveis a pobres. Mas pelo critério de aferição de ascensão social de até R$ 1,2 mil. Quem pode ser considerado de classe média a US$ 600 nos Estados Unidos?

A maior façanha do PT foi ter multiplicado a quantidade de bilionários brasileiros à custa do tesouro nacional, usando o BNDES como intermediário. Para promover as tais multinacionais brasileiras, sem dar-lhes o suporte da competência para a concorrência internacional, o caixa do governo está sendo submetido a uma hemorragia. Mas como parece que a entrada de dinheiro gera riqueza, quem não consegue entrar na roda no mundo real parte para a violência. Quem fazer parte da dança, mas a parte que lhe reservam é ilusória. Como quebrar o feitiço?

Através da violência. Esta, imensa e chocante como nunca. Se pode ser usada a imagem de campos de concentração, que não considero apropriada, deve-se atinar para o fato nada secundário de que não há muros para isolar os confinados. Isso é ainda mais trágico. Daí a revolta, o ódio e a barbárie nos atos de violência.

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1 comentário

Arquivado em O que Lúcio nos diz

Uma resposta para “Em nova entrevista, LFP responde sobre sua formação intelectual, política, Comissão da Verdade e desigualdade social

  1. Todo a entrevista quase só vale por essa parte:

    “A maior façanha do PT foi ter multiplicado a quantidade de bilionários brasileiros à custa do tesouro nacional, usando o BNDES como intermediário.”

    Isso meus amigo, se chama esquerdismo.
    CAPITALISMO DE ESTADO!
    ESSA É UMA PEQUENA PARTE DA ELITE ESQUERDISTA QUE VOCÊ SUSTENTA!
    CONFIRA A EDIÇÃO REVISTA, APERFEIÇOADA E AMPLIADA DA LISTA DOS QUE ACHAM QUE MEXER COM O CHEFE SUPREMO É MEXER COM ELES
    http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2013/03/confira-edicao-revista-aperfeicoada-e.html

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