Mais energia da selva

Publicado na coluna Cartas da Amazônia, no Yahoo!, em 18 de fevereiro de 2013.

Por Lúcio Flávio Pinto

Quem está construindo ou ainda pretende construir hidrelétricas na Amazônia, já sabe: esse é um processo cada vez mais difícil e acidentado. As populações estabelecidas nos locais escolhidos para o barramento do rio questionam o velho dogma de que energia de fonte hidráulica é a mais limpa de todas, além de ser a mais barata.

As antigas planilhas de cálculo dos engenheiros sustentavam essa tese e contornavam as resistências às obras. Na nova estrutura de custos, novos itens foram adicionados. Hoje há uma visão mais ampla e profunda do que representa a intervenção humana em regiões distantes e ainda isoladas da Amazônia.

Por isso, quando superada a fase da viabilidade econômica e ambiental do empreendimento, sobra um fator cujo peso se acentua continuamente: a mitigação de todos os efeitos – ecológicos e sociais – decorrentes do represamento do rio e do alagamento da área às suas margens, que será transformado em reservatório da usina hidrelétrica. A energia se torna menos limpa e menos barata nesses parâmetros.

Mas o governo federal já tomou uma decisão: quer obter na Amazônia energia suficiente para abastecer a maior parte do Brasil. E num ritmo mais célere do que o próprio crescimento da demanda efetiva. Em alguns setores, o consumo até tem sido inferior ao da evolução da população, como no caso da indústria.

Mas para Brasília esse efeito reverso não interessa. Alega que precisa ter visão de longo prazo para prevenir apagões. O apagão de 2001 jogou terra sobre o projeto tucano de 20 anos no poder. Fernando Henrique Cardoso não conseguiu passar o bastão a José Serra. A ambição por essa meta continua viva nas aspirações dos petistas. Diversos blecautes nos dois últimos anos servem de advertência aos chefes do partido, embora as lições pareçam ter sido tomadas em sentido restrito, concentradas ao potencial hidrelétrico da Amazônia.

Por isso o andamento na implantação das novas mega hidrelétricas seja tão tumultuado, ainda assim contínuo. Os incidentes, causados pela ocupação dos canteiros de obras ou por uma verdadeira guerrilha judicial travada com os críticos dessa opção, desviam a atenção do fato concreto mais expressivo: dos rios amazônicos sai volumes crescentes de energia, transmitida através de extensas linhas por centenas ou milhares de quilômetros.

Na semana passada os construtores da maior dessas usinas, a de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, venceram mais uma medição de forças com o Ministério Público Federal, que se transformou no principal adversário dos barragistas. Um juiz federal não aceitou interromper a construção, que já mobiliza 20 mil operários.

Antes de negar a liminar pedida pelos procuradores da república, a justiça federal aceitou impor multa à Norte Energia se a responsável pela hidrelétrica não provar que cumpriu o acordo,  firmado no ano passado, que permitiu a desocupação do canteiro de obras.

Índios estabelecidos abaixo do principal vertedouro protestavam contra o descumprimento de exigências do licenciamento ambiental, feitas para compensá-los por danos eventuais da obra. O MPF queria aplicar multa diária de dois milhões de reais. A justiça só aceitou R$ 500 mil. A concessionária tem até o dia 7 do próximo mês para provar que não violou o acordo.

A hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia, começou a funcionar em março do ano passado, com nove meses de antecedência em relação ao cronograma original. Em janeiro, antes de completar um ano de atividade comercial, a 10ª máquina entrou em operação na usina, assegurando a geração de 713,5 megawatts. É energia suficiente para abastecer mais de três milhões de residências, cinco vezes acima do total de moradias de todo o Estado. A conclusão é óbvia: grande parte da energia vai atravessar os limites territoriais de Rondônia.

A energização já parte para a segunda casa de força da barragem. Até o final de 2013 estarão em linha 27 turbinas, o equivalente a 60% do potencial hidrelétrico de Santo Antônio. O cronograma prevê que a usina alcançará todos os seus 3.150,4 MW até novembro de 2015. Ela iniciou a operação comercial em março de 2012.

Enquanto Santo Antônio, que fica bem perto de Porto Velho, acelera sua motorização, Jirau, mais acima no Madeira, entrará em operação em maio deste ano. As duas primeiras das 50 unidades que a usina terá serão instaladas até o próximo mês, mas a operação efetiva será dois meses depois, para coincidir com a conclusão da linha de transmissão. Assim, a energia sairá das turbinas para os fios e seguirá no rumo do sul do país. Nesse ritmo, a conclusão da obra será antecipada da data inicial, que era dezembro de 2016, para meados de 2015.

Assim, apesar de todos os problemas que aconteceram nos dois canteiros, o Madeira já é uma das principais fontes de energia do Brasil, mesmo localizado a grande distância dos principais centros consumidores. A Amazônia se consolida como província energética nacional.

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