A voz dos leitores

Publicado na coluna Cartas da Amazônia, no Yahoo! Notícias, em 4 de outubro de 2012.

Por Lúcio Flávio Pinto

Um número crescente de jornalistas está manifestando ceticismo ou descrença absoluta nesta “plataforma” que estou usando e abandonam a rede mundial de computadores. Uns voltam à publicação impressa, outros — em menor número — conseguem passar para o livro.

Por incrível que possa parecer, a fonte de decepção é o pouco retorno do que escrevem. Ou um retorno que não consideram nem estimulante nem produtivo. Acham que estão perdendo seu tempo.

De fato, a internet tem servido a muito desperdício de energia humana. Torna-se ferramenta para agressões pessoais ou veicula estultices. Ainda assim, seu saldo é extremamente positivo. Ela possibilitou um diálogo on-line, “ao vivo”, em escala planetária. Está acessível a um universo de pessoas sem igual por qualquer outro meio de comunicação.

Continuo confiante nos resultados dessa alternativa. Tangenciando suas extravagâncias e deturpações, há campo suficiente para plantar boas sementes. Tanto em benefício de quem recebe as mensagens quanto de quem as transmite. Por isso resolvi dedicar algumas das minhas colunas para dialogar com seus leitores.

Esta primeira conversa é com os que se manifestaram a propósito da “Odisseia em Carajás”.

Verifica-se, na maioria dos comentários, uma preocupação acentuada pelo beneficiamento das matérias primas que exportamos, como, no caso, o minério de ferro. Parece uma questão evidente, óbvia e ululante. Quanto mais valor se agrega ao recurso bruto da natureza, mais renda se obtém. O problema é como chegar a esse produto final e, depois, como, a quem vendê-lo e por que preço.

Com toda a sua pujança em algumas commodities, como o minério de ferro (o número um), a soja, a laranja, o milho ou a carne, o Brasil ainda conta pouco no mercado internacional global. Sempre voltado para a exportação, que, hoje, é a principal geradora de capital em circulação no país, o Brasil não tem se mostrado capaz de traduzir seu potencial de grandeza em grandeza efetiva.

Não mudou a marca básica das suas relações de troca: só fatura mais vendendo volumes de mercadorias ainda maiores. Assim, o avanço é quantitativo, muito mais do que qualitativo. Seu crescimento não se consolida. Só se a renda gerada fosse crescente e desse causa a reinvestimentos maiores, poderia garantir a perenidade do desenvolvimento. Ao invés disso, sobe e depois cai.

No caso do minério de ferro, a primeira transformação seria para ferro gusa e aço. Com o governo de Juscelino Kubitscheck, na metade dos anos 1950, passou a ser necessário produzir mais insumos para a siderurgia poder atender aos pedidos da indústria automobilística, a que maior apoio obteve para se desenvolver (por ironia, como agora).

São Paulo produziu os veículos automotores, enquanto Minas se tornou a província de ferro gusa. Para a transformação do minério de Itabira (terra do poeta Carlos Drummond de Andrade) em gusa, foi usada a floresta nativa, queimada para produzir carvão, componente fundamental no processo industrial.

Quanto a madeira começou a ficar distante centenas de quilômetros dos centros consumidores, as guseiras  passaram a se transferir para as margens da ferrovia de Carajás. Havia na região minério ainda melhor do que o de Minas. Muita mata para derrubar, mão de obra barata e governos desatentos.

Na ponta do lápis, como se dizia antigamente, seria melhor vender minério do que o produto seguinte na escala da transformação, a gusa. O ferro de Carajás tem teor médio de 65% de hematita. Queimando o minério em fornos, esse índice pode subir para próximo da pureza total. Mas à custa de floresta nativa, recurso natural que vale mais.

O leitor contestador imediatamente observará: mas como é que as indústrias se mantêm? Porque tanto em Minas quanto no Pará e no Maranhão, onde elas se instalaram, a esmagadora maioria, no princípio e várias até hoje, usaram madeira extraída da floresta.

Poucas fizeram reflorestamento. E as que plantaram árvores ainda não são autossuficientes nesse insumo. Quando o utilizam, têm que buscar novas formas de viabilização que não a primeira escolhida. E que só foi escolhida porque não adotamos critérios sérios para organizar esse setor.

Foi porque a madeira ficou a uma distância economicamente inviável e o reflorestamento não as atraía que muitas guseiras de Minas se transferiram para a Amazônia. Depois de terem fomentado o desmatamento, o trabalho escravo e o uso de crianças na produção de carvão é que seguem uma nova trilha.

Se pudéssemos fazer um cálculo da renda gerada por essa atividade e o prejuízo que elas causaram ao meio ambiente e às pessoas com suas usinas anacrônicas, provavelmente chegaríamos a um saldo negativo. E de dimensões impressionantes.

Não é por outro motivo que ninguém mais produz ferro gusa de carvão vegetal, como nós. A primeira lei ecológica do mundo foi baixada pelo rei da Suécia. Proibiu, durante 20 anos, o abate de árvores para a produção de carvão, que serviria ao fabrico do aço. Quatro séculos, portanto, é o tamanho do nosso atraso nessa matéria.

Fica a lição: antes de seguir o caminho que parece o natural, é necessário pensar, analisar e comparar. O simples bom senso é um perigoso critério para decidir. A inteligência aplicada vai além. É aonde precisamos ir.

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2 Comentários

Arquivado em O que Lúcio nos diz

2 Respostas para “A voz dos leitores

  1. Prezado Lúcio, quero comentar somente a parte inicial de seu artigo: a validade da internet. Como usuária, vejo que tenho que peneirar aquilo que me interessa e aquilo que considero baboseira. Mas vejo, me encanto e me assusto também com a rapidez das notícias. É tudo muito novo para toda a civilização humana e ainda não tivemos tempo de digerir tudo o que esta revolução está provocando em nós. Quando criança o fogão da casa da cidade era a lenha e na fazenda não havia eletricidade nem telefone. Éramos cidadãos sobretudo dos nossos recantos. Hoje somos seres planetários, como dizia Milton Santos. E isto é bom demais. Assustador, mas bom.
    Quanto à segunda parte, vou procurar um artigo do luis nassif que li outro dia e que falava sobre o mesmo assunto e comparar as duas opiniões. Esta é outra vantagem da internet.

    • Oi, Gabriela.
      A propósito desses dois mundos, sugiro a leitura da autobiografia do Arthur Miller, publicada anos atrás, Uma Vida. Além do prazer da leitura, ela fala sobre o mundo táctil, real, produzido por nós em um processo que dominávamos, enquanto o atual é veloz, virtual, segmentado, minimalista.
      Podia me mandar o texto do Nassif?
      Um abraço. Lúcio

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