No Diário do Pará: ‘Lúcio Flávio não sabe se vai ao Prêmio Herzog’

Publicado no Caderno Você, em 14/06/2012.

É bem provável que o jornalista Lúcio Flávio Pinto não receba em mãos o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos 2012, em cerimônia prevista para acontecer em São Paulo, em outubro. O motivo, ironicamente, é o trabalho pelo qual é homenageado: o “Jornal Pessoal”. As denúncias publicadas no periódico independente já lhe renderam a impressionante marca de 33 processos. Atualmente, o número de ações na justiça caiu para “apenas” seis, o suficiente para obrigá-lo a ficar em Belém pela maior parte do tempo.

“Sair de Belém é, até hoje, bem complicado. Sempre corro o risco de ter uma audiência marcada durante minha viagem. Isso já aconteceu e os danos causados ao processo foram irreversíveis”, afirma o paraense de 62 anos, 46 deles dedicados a profissão.

Lúcio dá o sangue pelo jornal. Às vezes, literalmente. Em 2005, meteu-se em uma briga com Ronaldo Maiorana, diretor das Organizações Rômulo Maiorana, que editam o jornal “O Liberal” e mantêm a “TV Liberal”, retransmissora da Rede Globo no estado. Maiorana agrediu o jornalista num restaurante de Belém em retaliação a um artigo veiculado no “Jornal Pessoal”.

Em uma bizarra reviravolta, o caso rendeu uma ação por crime de calúnia, injúria e difamação contra o jornalista. “Rômulo alega ter sido ofendido ao dizer que ele me espancou, quando o que ele teria feito foi ‘só’ me agredir. É a estratégia deles para impedir o meu trabalho. Consumir o meu tempo no tribunal ao invés da redação. Mas eu continuo escrevendo”, afirma. São quatro os processos movidos pela família contra ele.

Por sua perseverança quixotesca, a escolha de Lúcio Flávio Pinto foi unânime entre a comissão organizadora do Prêmio Vladimir Herzog, o mais tradicional concedido no país a jornalistas e veículos de comunicação que denunciam a violação de direitos civis e políticos. “Sua trajetória corajosa e trabalho exemplar à frente do Jornal Pessoal são motivo de orgulho para todos os jornalistas brasileiros. É exemplar o seu esforço para manter uma publicação independente que contraria interesses hegemônicos”, elogia a curadora desta 34ª edição do prêmio, Ana Luisa Zaniboni Gomes, em comunicado.

Lúcio receberá a premiação ao lado do jornalista Alberto Dines, editor do “Observatório da Imprensa”. A dupla homenagem deste ano acontece em caráter excepcional, pois o prêmio normalmente é atribuído a um profissional da imprensa.

“Normalmente as pessoas se candidatam a este prêmio. Mas o meu nome foi indicado pelo júri. A última vez em que me inscrevi a um prêmio foi ao Esso, em 1984, que ganhei. O reconhecimento é um incentivo, ainda mais se tratando do prêmio que faz referência a Vladimir Herzog. Eu estava no culto ecumênico celebrado em sua intenção na catedral da Sé, em São Paulo, realizado uma semana depois da sua morte em 1975. Apesar de ter sido assassinado de maneira torpe, sua morte não foi em vão. Seus ideias de liberdade, de resistência, persistem”, afirma.

QUEM FOI

O jornalista Vladimir Herzog foi torturado e morto em 25 de outubro de 1975, após ter se apresentado espontaneamente às autoridades policiais, depois de um pedido de esclarecimentos por suas relações com o PCB. O governo tentou encobrir o assassinato com a versão de que Herzog cometeu suicídio na prisão. A sua morte repercutiu no exterior e impulsionou o movimento contra a ditadura. Um culto ecumênico na Catedral da Sé reuniu oito mil pessoas, caracterizando uma das manifestação contra o regime.

Sem publicidade no jornal, LFP admite que fez “voto de pobreza”

Sem publicidade, sem rabo preso – O “Jornal Pessoal”, de Lúcio, não poderia ter nome mais propício. Publicado quinzenalmente, é escrito e editado pelo jornalista. Em formato ofício, o jornal tem 12 páginas e não usa cores ou fotografias. Com tiragem de dois mil exemplares, os R$ 5 cobrados por publicação mal dão para cobrir os custos de produção. A precariedade financeira é por opção: desde sua fundação, o jornal adotou como diretriz editorial não ter publicidade.

“Jornal é feito por uma só pessoa, mas como se fosse coletivo. Fecho o jornal durante o final de semana e vendo em algumas bancas e livrarias. Não o considero tão pessoal assim, as pautas são ditadas pelos assuntos da atual conjuntura. Assuntos que eu considero mal tratados ou ignorados pela mídia. Nunca vai dar para viver do jornal. Fiz essa espécie de voto de pobreza para fugir de qualquer comprometimento ideológico”, explica o editor do periódico, que completa 515 edições no começo deste mês.

Se não bastasse, o jornalista ainda se vê obrigado a dividir seu tempo com a redação dos processos. Avalia que foram milhares de páginas escritas ao longo das últimas duas décadas. “Ninguém queria me defender. No começo tinha ajuda desse amigo advogado, que se ofereceu para me ajudar, mas ele estava em início de carreira, não tinha escritório. Então eu passei a redigir os laudos. Até hoje permanece assim, já que não tenho como arcar com todos os honorários dos advogados”, conta.

Como gosta de enfatizar, não decidiu ficar sozinho, mas se “encontrou” sozinho nesta empreitada. Foi após tentar publicar uma reportagem sobre o assassinato do ex-deputado estadual Paulo Fontelles de Lima, advogado de posseiros de terra, em 1987, na Região Metropolitana de Belém, que se viu sem espaço na grande mídia.

“Demorei três meses investigando o caso, mas a minha matéria foi recusada pela chefia do jornal que trabalhava na época, já que o crime envolvia dois dos maiores anunciantes do jornal. Foi aí que decidi publicar por conta própria e fundar o ‘Jornal Pessoal’”, relembra.

Após coleta, jornalista pagará indenização

Talvez Lúcio não esteja tão sozinho nesta empreitada quanto acredita. Condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a pagar em indenização à família do empresário Cecílio do Rego Almeida, dono da Construtora C. R. Almeida, por conta de uma matéria escrita em 1999 que demonstrava um esquema de grilagem de terras de milhões de hectares no Pará, ele se viu surpreendido com a solidariedade de amigos e leitores.

De acordo com a condenação de 2005, Lúcio Flávio por ter se referido ao empresário, morto em 2008, como “pirata fundiário” deveria pagar R$ 8 mil de indenização à família do empreiteiro. Em valores atualizados, a quantia poderia chegar a R$27 mil. Uma campanha de arrecadação feita espontaneamente pela internet, mobilizou 700 doadores e reuniu a quantia em apenas dez dias.

“O Supremo Tribunal Federal indeferiu o meu recurso alegando falhas processuais. Eu tinha um período de três anos para cumprir a sentença, mas decidi não alongar mais o processo e me apresentar espontaneamente para a execução da sentença”, conta o jornalista.

O processo, que se arrasta há 10 anos, teve seu final decretado no início do ano, quando o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) negou agravo do jornalista argumentando “falhas processuais” no recurso. No último dia 11, ele protocolou o pedido de execução da sentença na 3ª vara civil de Belém. Decidiu em protesto, não recorrer mais e pagar o valor em espécie.

“Será uma decisão inédita, ninguém nunca se apresentou espontaneamente para pagar uma indenização. É minha forma de protestar. Quero chamar atenção para a decisão do Tribunal de Justiça do Pará por agir em prol de um grileiro. Espero dessa forma honrar o dinheiro que me foi doado”, diz.  (Diário do Pará)

Anúncios

1 comentário

Arquivado em O que Lúcio nos diz

Uma resposta para “No Diário do Pará: ‘Lúcio Flávio não sabe se vai ao Prêmio Herzog’

  1. Só pra fazer duas correções.
    1ª – Há no mínimo uma foto (Memórias do Cotidiano).
    2ª – Apesar de ser escrito só pelo Lúcio, a edição é feita em conjunto (já que, em função da disponibilidade gráfica, eu posiciono as matérias no jornal), e, infelizmente, o Lúcio não consegue sequer traçar uma reta sem a régua. Portanto as ilustrações e charges (estas, na sua maioria, ideias dele – para meu desassossego) não nascem do nada. Tudo isso sem falar do pessoal da gráfica.
    PS: pô, Dulcineias, que o Quixote sombreie seu Pancho, já nem ligo, mas vocês…

Manifeste solidariedade

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s