Entrevista: Lúcio Flávio Pinto comenta o Prêmio Vladimir Herzog

Publicado no Diário do Pará, caderno Você, edição de 1º de junho.

“É UM MOMENTO VITAL PARA MIM”

Por Elias Ribeiro Pinto

Na coluna de ontem, “Lúcio recebe Prêmio Vladimir Herzog”, informei ao leitor a respeito da premiação do jornalista Lúcio Flávio Pinto. Por “sua trajetória corajosa e trabalho exemplar à frente do Jornal Pessoal”, segundo a comissão organizadora, “motivo de orgulho para todos os jornalistas brasileiros”, Lúcio “será laureado”, ao lado do jornalista Alberto Dines, em outubro, em São Paulo, no Teatro da Universidade Católica. Encaminhamos três perguntas ao editor do JP.

Lúcio, qual o sentimento ao receber a notícia dessa premiação, significativa não só pelas entidades que a concedem, mas também pelo fato de o prêmio ter o nome de um colega que lhe traz recordações pessoais e, para o país, ter um significado histórico, de que você também foi testemunha?
Lúcio – Sempre pensei nessa premiação. O que a torna mais valiosa é não precisarmos nos inscrever. A última vez em que me habilitei a um prêmio foi em 1984, ao Esso, que ganhei com uma matéria especial sobre o Projeto Jari. O que veio a partir daí foi espontaneamente, como agora. O Prêmio Vladimir Herzog é especial em função do patrono. Eu estava no culto ecumênico celebrado por ele na catedral da Sé, em São Paulo, uma semana depois que ele foi morto, em 1975. Foi um daqueles momentos que a gente percebe ser histórico de imediato: pelo clima emocional, pela quantidade de gente, pelo desafio à ditadura, que estava no seu apogeu. Via-se que a morte de Herzog não fora em vão, apesar da sua brutalidade. A história começou a mudar ali. Receber a honraria com o nome dele é dignificante.

Você se considera em boa companhia tendo Alberto Dines “ao seu lado” na premiação?
Lúcio – Tivemos um atrito sério no passado recente. Mas o apoio que o Dines me tem dado nos últimos tempos apaga esse incidente e me faz projetar a memória para o futuro. Sinto que houve uma autêntica conversão e que ele se tem empenhado com sinceridade e denodo em juntar seu nome e os espaços de que dispõe em favor do jornalismo que faço e da pessoa que sou. Aos 80 anos, Dines impressiona pela vitalidade e a vivacidade. E a mim, por essa solidariedade incondicional, que atravessa o enorme espaço – geográfico e histórico – entre o Sul e o Norte.

A notícia do prêmio foi efusivamente festejada por seus leitores, conhecedores dos processos que você enfrenta, obstáculos, por sua vez, que colocam em risco a circulação do “Jornal Pessoal”. Capaz de esses leitores irem em caravana a São Paulo a fim de acompanhar a premiação. Você estará lá?
Lúcio – Farei tudo para desta vez estar presente. É um momento vital para mim. Sinto que ultrapassei o limite das minhas forças na resistência aos ataques e no contra-ataque a esses integrantes de uma elite predadora, como os Maioranas, e saqueadora, como o finado Cecílio do Rego Almeida e seus seguidores, incluindo os herdeiros, que se habilitaram na ação do pai. Meu modo de ser é de caboclo. Os atos solenes e as multidões me assustam um pouco. A notoriedade, mesmo que restrita, também. Mas é maravilhoso ter a companhia de tanta gente boa e merecer sua imediata resposta. O espaço da PUC é tão grande e acolhedor quanto o meu coração.

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3 Comentários

Arquivado em O que Lúcio nos diz

3 Respostas para “Entrevista: Lúcio Flávio Pinto comenta o Prêmio Vladimir Herzog

  1. Luiz Mário de Melo e Silva

    Caro Elias, foste maldoso com os leitores do Lúcio ao fazer-lhe apenas três perguntas. Mas, tudo bem! Penso que Vladimir Herzog vive em Lúcio e em todos os que lutam pela liberdade. Portanto…

  2. Marco Barros

    Meu Deus, que maravilha. As vezes eu fico naquela inciclíca do Renato Russo, “que país é este”. Depois de tanta luta pela tal democratização, as verdadeiras liberdades, a solidariedade e a luta dos movimentos sociais, parecem que enfraqueceram. Sinto uma impotência, enquanto cidadão brasileiro, e fico saudaso das dezenas de passeatas que participei nas décadas de 80 e 90 em Belém, no movimento estudantil. Como sou um resistente como o nosso grande Wladimir Herzog e o nosso querido caboclo, a quem eu tenho chamado héroi da resistência LFP. Vou continuar lutando e, me alimentando de vitórias como essa. Parabéns Lúcio, sua vitória é a minha vitória, é a nossa vitória.

  3. Socorro Veloso

    Boa ideia, a da caravana para prestigiar a entrega do prêmio ao Lúcio. Desde já coloco meu nome na lista! 🙂

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