O Jornal Pessoal está caro ou não? Lúcio Flávio Pinto esclarece

Por Lúcio Flávio Pinto

É frequente que pessoas, conhecidas ou não, me abordem dispostas a contribuir para a sobrevivência do Jornal Pessoal, que é precária. Comprem o jornal, costumo responder. Assim estarão ajudando o jornal a se manter e a cumprir sua finalidade, que é difundir o seu conteúdo pelo mais amplo universo possível.

Algumas dessas pessoas me abordaram de outra maneira quando o preço de capa do JP passou de 3 para 5 reais. “Ficou caro”, foi uma das observações mais comuns. “Não vou mais comprar”, foi outra. As mais doídas não chegaram a ser ditas. Sugeridas, doeram mais. Eu estaria querendo enriquecer?

Dos atuais R$ 5 de cada exemplar, me fica R$ 1,5 líquido para cobrir as despesas indispensáveis para que o jornal circule. Jamais ficarei rico, como é óbvio. Nunca viverei do que me sobra (quando sobra) do JP. Eu estaria bem mais abonado se aceitasse meia dúzia de anúncios já oferecidos.

O JP é caro? Antes deste aumento, Francisco Rocha Jr. já sugeria, em março do ano passado, que o JP devia custar mesmo os R$ 5 fixados, um valor a que ele se referiu no blog Flanar (ver post Um apelo ao Jornal Pessoal). Mas certamente para voltar ao preço que tinha em 1995, o valor chegaria a mais. Com uma diferença: adicionei quatro páginas ao volume anterior, num acréscimo de 33% em tamanho do jornal. O aumento, de 66%, significou, na verdade, menos da metade, em termos reais (custo por página), com essa relativização.

Qualquer que seja o preço de capa do JP, que vive exclusivamente da venda avulsa dos seus exemplares, o preço deve ser relativizado pelo seguinte:

1 – O jornal adotou como diretriz editorial explícita e firme, mantida sem qualquer exceção por quase 25 anos, não ter publicidade. É uma opção pela pobreza. E também por um compromisso radical com o leitor e consigo mesmo.

2 – O JP só sobreviveu a esse desafio à física financeira porque é feito por uma só pessoa, com o custo industrial mais modesto possível e fugindo de qualquer comprometimento financeiro. Cada edição é única. Pode acabar a qualquer momento, tal sua precariedade. Mas não deixará sequelas, exceto (espero eu, na minha incorrigível esperança) o que contém.

3 – Apesar do seu título, o JP decididamente não é (ainda não é, lamento eu) um jornal pessoal. Ele podia ser meu meio de evasão para a literatura, a crônica e a memorialística, gêneros aos quais uma pessoa com a minha idade e a minha vida tem inclinação natural. A pauta do JP é ditada pela conjuntura. Ele continua um prisioneiro dos fatos. Mas por que os fatos que divulga, os raciocínios que realiza, as teorias que formula ou as propostas que faz não estão na imprensa convencional? Por que o JP é único?

Não será por sua estrutura logística e recursos operacionais. Seu metafísico capital próprio não permite ao seu redator ir além do Ver-o-Peso. Mesmo assim, é de tal qualidade o material do jornal que encontra seu lugar na mídia nacional e internacional. Duvida? Então faça sua pesquisa pela internet. O JP já saiu no New York TimesWashington Post, Los Angeles Times, The Independent, Le Monde, Corriere della Sera, La Reppublica e por aí vai. Quantos jornais brasileiros (não vou falar de paraenses apenas) conseguiram essas acolhidas generosas?

Justamente porque o JP é respeitado e tem credibilidade, os que são por ele fiscalizados, em função dos interesses públicos que movimentam (contrariam ou manipulam), querem o seu fim. Se não podem simplesmente eliminá-lo de uma vez (e já tentaram isso), buscam miná-lo, atingir suas funções essenciais, inviabilizá-lo. Querem fazê-lo sangrar até morrer. Este é o objetivo dos processos judiciais.

Se você já foi uma vez à justiça, ou algumas vezes, deve ter uma ideia mais realista do que é ser levado às barras tribunais por diversas vezes, tendo do outro lado antagonistas poderosos – quando não, na função de julgadores, que deveriam exercer o poder arbitral, tendo outros inimigos. A escalada de processos contra mim, pelos bons resultados que proporcionaram aos seus autores, serviu de estímulo para a investida desses mesmos personagens sobre outros alvos e para o aparecimento de outros autores visando também outras vítimas.

A busca pela censura à imprensa no Pará se tornou epidêmica. Para usar a imagem do famoso poema, muitas das rosas do jardim já foram despetaladas. Sem uma reação à altura, logo não haverá mais jardim. Entendendo-se por esse jardim metafórico o lugar onde se cultivam as informações, a liberdade de expressão e de pensamento.

É sintomático o contraste entre a quantidade de adesões quando quem ameaça é um empresário distante, como o grileiro C. R. Almeida, é um poderoso local, como o grupo Liberal. O eco sonoro e robusto à denúncia no primeiro caso é substituído por um silêncio sepulcral no segundo caso. Isso revela fraqueza, quando não tibieza ou covardia. É o alimento que ceva os tiranos, levando-os a avançar e ousar cada vez mais. Mediriam seus atos e recuariam se a sociedade reagisse da mesma forma quando a violação atinge elemento essencial da base democrática da nossa república, como a liberdade de imprensa.

Para alguns poderosos, liberdade de imprensa é liberdade de empresa. Pode ser também liberdade de dizer o que bem entender, mesmo que o dito seja mentiroso, cínico, debochado. Mesmo que desrespeite as normas da convivência coletiva. Mesmo que não passe de gazua para arrombar os cofres públicos. Todos os que se intimidam, recuam e se calam fazem parte desse jogo. Nele, não há inocentes. Como dizia outro poeta, o alemão Bertolt Brecht, a ingenuidade é prova de insensibilidade. O desinformado entre nós, esta casta bem alimentada, bem vestida, perfumada, longilínea e bonita, é aquele que não quer saber. É aquele que se lixa pelo saber. É o narcisista egoísta que só trata do que lhe interessa e só reivindica o que lhe serve, lhe traz proveitos, lucro, vantagens. Não é assim que se mantém uma sociedade em estado democrático. E não é assim que se mantém a saúde das artérias da sociedade, necessitadas da informação vital, que cabe à imprensa fornecer, no desempenho do mais nobre dos seus ofícios: o de instrumento do interesse social.

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9 Comentários

Arquivado em O que Lúcio nos diz

9 Respostas para “O Jornal Pessoal está caro ou não? Lúcio Flávio Pinto esclarece

  1. … encasquetou que não as quer…
    é isso!

  2. …(ops!), perdão… encasquetou não as quer…

  3. JP, firewall contra a ignorância. Habilitar (recomendado).

    Quanto custa uma informação? Uma informação verdadeira? Que pode mudar a vida de uma ou a de muitas pessoas por ser de interesse coletivo?
    Medir o conhecimento é contar tesouros.
    Sempre foi assim, desde o início dos tempos. O que sabe mais está sempre na frente. Informa os demais, mais desatentos.
    O conhecimento aponta o clarão onde cegos vagam por caminhos escuros.
    O Lúcio nos dá isso. Ele aponta à claridade, nos libertando da ignorância, da ingenuidade em acreditar nas verdades escamoteadas, falseadas.
    E isso não tem preço. Temos mais é que ser gratos pela existência do Jornal Pessoal – ainda que corajosa e abnegadamente caminhada em uma via crucis, como sugere o LP.
    De qualquer modo, entendo bem a preocupação do LP em relação à inclusão de anúncios no JP. E provavelmente ele está certo.
    Mas entendo ainda mais as razões – sem mesmo querer questioná-las – pelas quais o Lúcio encasquetou que não os quer no Pessoal.
    Acho que o JP é um sucesso. E sucesso é caro, sim senhor.

  4. Edney Silva Paiva

    Estou em São Paulo, há pouco, passei a receber o Jornal Pessoal arcando com as despesas dos correios. Quando abri o pacote e vi o novo preço, pensei: “Poxa, até que fim, o Lúcio aumentou o valor”.
    Pela qualidade do JP, mesmo que estivesse do outro lado do mundo, ainda que arcando com as despesas postais.
    Quando estava em Belém, comprava, divulgava, presenteava e distribuia o Jornal Pessoal, não pelo seu preço, mas pela sua credibilidade.
    Convenhamos, o Lúcio ficar com exatos R$ 1,50, por exemplar, é uma afronta pelo que escreve.
    Logo, volto para Belém, onde retomarei algumas atividades, como: Comprar, divulgar, presentear e distribuir o Jornal Pessoal.

  5. Não acho caro, é um preço possível para qq pessoa de classe média baixa , porque a classe baixa (segundo nomeclatura economês) está tão ocupada em sobeviver que nem vê nada (a não ser a Tv Globo), bom, tb fecho com o Lúcio sobre os anúncios, a esta altura da vida não será ele que vai ficar com rabo preso aceitando anúncios. Então temos que pagar pelo preciosismo das investigações e pelas informações jornalísticas do Lúcio, só insisto Lúcio que tu deverias fazer assinaturas pelo menos para fora de Belém…beijos meu querido. Fatima Aragão.

  6. Eu acho teimosia do Lúcio em não aceitar anúncio no JP. Acho que isso não abalaria em nada a credibilidade do jornal. Há tanto profissional liberal (ôpa!) que gostaria de associar sua marca à do JP, e se por algum motivo se sentisse atingido por alguma matéria (normal, em se tratando do Pessoal), era só retirar o anúncio, pronto. Qual o problema? Chego até a dizer que é burrice do Lúcio, vá gostar de se imolar assim lá na via crusis, égua!

  7. Se vivo fosse Karl Marx teria confirmada a tese segundo a qual a sociedade segue a ideia da classe dominante. Logo, o que se vê de violência, corrupção e mentira tem a elite como referência, fazendo com que o JP tenda a ser desconsiderado por ser o extremo oposto (a redundância é proposital) ao que pratica e, sobretudo, divulga tal elite por meio de sua mídia alienante. Todavia, tal situação enseja interessante comparação ao navio que afunda por não observar o farol a indicar a rota correta, onde navio e farol têm seu correspondente na sociedade e no JP, respectivamente. Faz-se necessário, então, observar que o JP não é somente grande por competência, qualidade e conteúdo, mas porque a sociedade é pequena – infelizmente, para o regalo dos facínoras. O que faz com que o preço se torne irrisório.

  8. O mínimo que podemos fazer é comprar regularmente o jornal e pagar o preço de capa que vier. Para o conteúdo do jornal e a dedicação do Lúcio Flávio, mesmo uma pessoa com poucas posses precisa sacrificar algum prazer, como uma cerveja, para poder comprar o jornal. Se nem esse sacrifício o indivíduo quer fazer, bem, algo está errado. Ele não está compreendendo o significado do Jornal para a sociedade em que vivemos, para a Amazônia, para a democracia.

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