O turista da enchente

Publicado na coluna Cartas da Amazônia, no Yahoo! Notícias, em 18 de maio.

Por Lúcio Flávio Pinto

Fui testemunha das três maiores enchentes do rio Amazonas registradas antes da atual, já considerada superior a todas as anteriores: em 1953, 1976 e 2009.

Ainda não fui ver com meus próprios olhos a retumbante cheia de 2012. Mas vi uma cena que nunca presenciara nos muitos acompanhamentos que fiz desse que é o maior fenômeno das águas doces do planeta: o turista da enchente.

Um cinegrafista da TV Globo, que, finalmente, descobriu a pauta (depois do Marajó e do Pará, por razões mercadológicas), captou a cena: turistas num bote de alumínio indo ao local de medição da evolução das águas no porto de Manaus.

Com seus coletes salva-vidas, em trajes de campanha e liderados por um guia, eles batiam fotos da centenária régua instalada no local, registravam nos seus celulares o cenário aquático e posavam eles próprios para fotografias, empolgados e emocionados.

Pareciam participar de um safári. Não orientado para ver — e abater — grandes animais, como na África e na Ásia. A nova modalidade é para contemplar e sentir o colosso que é o maior rio do mundo, tufado como nunca antes. Deve ter sido o grande assunto da excursão. Vai se estender por muito tempo, provavelmente para sempre, em suas vidas.

Lembro-me, muitos anos atrás, quando Manaus começava a trilhar pelo turismo ecológico, de um passeio de barco por igarapés nos arredores da cidade. O momento culminante da jornada era numa ilha, dentro de um labirinto, onde um grupo de índios executou uma dança ritual para embasbacados visitantes, a maioria vinda do exterior.

À noite, firmei a vista e me certifiquei: um dos garçons, que atendia no recém-inaugurado Hotel Tropical, dançara poucas horas antes, de cocar e tanga. A caráter, era um perigoso guerreiro diante de bwanas agradecidos pela oportunidade de comprovar que Jean-Jacques Rousseau tinha razão quanto ao bom selvagem.

O exótico pode ser o estranho, a desviar a compreensão do que se vê. Viu-se o fato sem entendê-lo. É muito comum em qualquer lugar do mundo percorrido por turistas apressados — e agora, com sua tecnologia instantânea, sempre mais superficiais.

Ainda assim, é positivo o surgimento desse novo tipo de turismo, que leva as pessoas a ver a natureza em plena atividade. O integrante de tais comitivas pode voltar ao ponto de origem carregado de emoções, sensações e crenças, convencido de que valeu a pena pagar (e caro) por essa oportunidade única. Pode até mesmo se tornar um apaixonado pela Amazônia e seu divulgador por onde mais estiver.

Contudo, é essencial não esquecer que as águas desempenham um ciclo na Amazônia, um ciclo esmagador, pelo volume movimentado durante esse circuito de encher e vazar, o mais importante em uma região do tamanho da Europa Ocidental ou dos Estados Unidos.

O turista, cheio de interjeições e exclamações, passa rápido. Quanto mais deles aparecerem, melhor. É um tipo de visitante mais útil do que o comprador de bugigangas da Zona Franca. Se apoiado e bem orientado, verá a obra da natureza em pleno processo, ao invés de se restringir a ter contato com a obra humana, frequentemente antípoda do meio ambiente.

Quem interessa, porém, é o nativo, aquele que fica. Mesmo que o rio inche como nunca, obrigando-o a elevar o piso de suas casas até o telhado, ou, quando a acomodação se torna impossível, a procurar outro abrigo, deixando para trás todo seu patrimônio e levando consigo muitas agruras, o habitante das margens dos rios tem outro tipo de reação diante dessa realidade.

Sempre que conversei com o varzeiro sobre a grande cheia, sua primeira reação era contrapor, à descrição da destruição provocada pelas águas, uma frase ao mesmo tempo calma e forte: haverá fartura no ano que vem.

Para o nativo, a água não é um acidente, um fenômeno em si. É elemento de uma cadeia, ser vivo, dinâmico, criador. Se sobe demais, a água inunda a faixa de terras mais próxima, onde pode estar uma fazenda, um povoado ou cidades grandes, como Manaus e Santarém. Esta é a sua face ruim, às vezes um flagelo.

Avançando sobre áreas nunca alcançadas até então, a cheia irá fertilizá-las — o que raramente acontece ou mesmo pela primeira vez, como agora. O Amazonas carrega no seu curso de autêntico mar sedimentos ricos em nutrientes, arrastados desde os Andes. Atingindo altura muito superior ao do seu nível normal, mesmo nas cheias de todo ano, depositará esses elementos sobre o chão pobre da região. Depois que ele desce, é ir lá e plantar. A messe será grande.

Claro: não é um ciclo apenas pacífico, bucólico, poético. Mas o homem, muito mais hoje do que em qualquer época, pode prever, controlar ou minorar a face destruidora do rio. Tem ao seu dispor satélites de informação, meios de locomoção, tecnologia de construção, um arsenal de recursos que existe, mas não está ao alcance do nativo, ainda entregue à própria sorte e aos próprios meios, ao que ainda é passado nos prospectos contemporâneos.

A faixa de terras banhada pelo rio fora do seu leito alcança 150 mil quilômetros quadrados. Não parece muito. O falecido empresário Cecílio do Rego Almeida dizia-se dono de quase metade dessa área no vale de um dos afluentes do Amazonas, o Xingu. Seriam, se a grilagem tivesse dado certo, 70 mil quilômetros quadrados para um homem só. Algo que violava as leis dos homens e da natureza.

Com apenas o dobro dessa pretensão territorial, as várzeas, tendo seu solo fertilizado todos os anos pelo grande semeador natural, o maior de todos, o Amazonas, seria a terra mais rica do mundo. Capaz de produzir alimentos para todos os brasileiros e, uma vez que os saciasse, excedente exportável para muitos outros povos.

Não há um único empreendimento privado ou projeto público destinado a essa finalidade. É um paradoxo incrível, absurdo. Mas não o bastante para acabar com toda esperança, como advertia Dante à entrada do inferno da Divina Comédia (deixai toda esperança, vós que entrais).

Já há o turista da enchente na Amazônia. Hélas!

PS — O programa de computador não inclui essa expressão. O Aurélio não a define satisfatoriamente. A lexicografia assemelha-se à Amazônia: uma região desconhecida ou mal entendida. Afe!

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1 comentário

Arquivado em O que Lúcio nos diz

Uma resposta para “O turista da enchente

  1. Muito bom o artigo. Ele me fez lembrar a bela experiência das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, no Estado do Amazonas, idealizadas e colocadas em prática pelo biólogo José Márcio Ayres, morto em 2003 e premiado internacionalmente por esses projetos, que incluem o turismo nas cheias e nas vazantes. Ou seja, o aproveitamento racional da várzea, com base em conhecimento científico, o apoio político e, o fundamental, participação e empenho da comunidade mostram que essa peculiaridade das terras amazônicas não está fadada à desgraça, como se pode pensar simploriamente ou como o país se acostumou a ver pelo noticiário. É uma riqueza que pode e deve ser manejada em benefício da população, para que não sofra indefinidamente com as cheias. Mas é preciso sensibilidade, inteligência, vontade e investimento, como nos mostram as reservas amazonenses.

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