O silêncio da democracia

No blog A Vale que vale, Lúcio Flávio Pinto faz uma reflexão e uma provocação aos leitores a respeito da possibilidade de haver debate fértil sobre questões de interesse público na internet, no Brasil. Ele criou aquele blog para fazer a contrainformação da Vale nos 15 anos de privatização da empresa. Achamos que o debate é válido também aqui neste blog, nas questões que lhe servem de motivo: o direito à informação de interesse público e a defesa da liberdade de expressão sintetizados na solidariedade ao jornalista. O que pensam os leitores?

Por Lúcio Flávio Pinto, em 20 de abril de 2012.

Quem não foi torturado, preso ou incomodado durante a ditadura militar (que se prolongou de 1964 a 1985) foi conivente com ela, se acomodando e deixando de lado o compromisso político? Ou, conforme palavra-chave da época, se alienando?

Responder que sim é tão equivocado quanto presumir que os perseguidos, pelo fato de terem se oposto radicalmente ao regime de exceção, estavam certos.

O eixo da resposta está na opção pela luta armada contra a tirania imposta, de forma mais intensa, de 1969 a 1977. Antes e depois as gradações foram no sentido do alívio da violência e da repressão, na busca pela normalidade democrática. Frustrada no primeiro coletivo. Realizada, no segundo momento.

Muitos prosseguiram na defesa dos seus ideais sem aceitar a tese da revolução pelas armas. Foram corajosos, se arriscaram muito e ajudaram o país a não mergulhar mais profundamente – nem mais demoradamente – nas trevas do Leviatã estatal, com sua contrapartida no sectarismo de esquerda.

Graças a servidores públicos e cidadãos em geral decentes e ativos, o país se manteve num nível mínimo de dignidade e civilidade. Sem essas fontes, o jornalismo teria sido reduzido a um eco da voz do dono, um aliado compulsório do poder.

Muitas das minhas fontes surgiram nesse período, tão desfavorável à coleta de informações e à transmissão de verdades. Até conversar com essas pessoas era arriscado. O Grande Irmão orwelliano (não é o Big Brother da TV Globo) estava sempre com seus muitos olhos bem abertos. Seus braços também podiam alcançar os recalcitrantes como os tentáculos de um polvo.

Ainda assim, contra todas as expectativas dos censores e controladores da opinião pública, a imprensa conseguia surpreender com reportagens fortes, substanciais, bem informadas. Graças a fontes situadas às vezes em posição de destaque dentro da estrutura do poder, tanto no governo como nas grandes empresas privadas.

As fontes se arriscavam muito. Mas se arriscavam por confiarem nos seus interlocutores da imprensa, que se comprometiam em manter completo sigilo – se necessário e em qualquer circunstância. E a serem corretos no uso das informações fornecidas.

Em algumas situações o contato com elas ocorria de uma forma tão tensa quanto os encontros de Bob Woodward com “Deep Throat”, seu informante secreto no FBI, durante o escândalo de Watergate, que obrigou o presidente Richard Nixon a renunciar para não sofrer o primeiro impeachment da história dos Estados Unidos.

Hoje sabemos que as cenas do repórter do Washington Post com o agente Mark Felt, reproduzidas no filme Todos os Homens do Presidente, foram dramatizadas de forma exagerada. Mas o padrão em momentos semelhantes no Brasil era esse.

Foi circulando à noite por Belém no carro particular do meu interlocutor que obtinha as informações do tenente-coronel Nivaldo de Oliveira Dias. Comandante do 2ª Batalhão de Infantaria de Selva, a principal unidade do Exército na capital paraense, ele foi o único militar que se rebelou contra a versão oficial do atentado terrorista de direita ao Riocentro.

Num boletim à tropa sob seu comando, o oficial (de currículo brilhante) disse não ter dúvida que o capitão e o sargento conduziam bombas para explodir durante a realização do show de motivação política no Rio de Janeiro. Foi preso e passou para a reserva, mas não se calou. Como sabíamos que ele era monitorado, conversávamos enquanto o carro rodava pela cidade, altas horas da noite. No dia seguinte um homem do DOI-Codi ia à redação fazer intimidação ao repórter.

Outro exemplo, na iniciativa privada, era um técnico canadense que chefiava a fábrica de celulose do milionário americano Daniel Ludwig na sua vasta propriedade no Jari, entre o Pará e o Amapá. Marcávamos encontro do outro lado do rio, no Beiradinho, uma cidade sobre palafitas. Caótica, mas livre.

Lá, tomando cervejas, o engenheiro se libertava do autoritarismo da fábrica e conversava sem limitações sobre o empreendimento, que era o modelo de investimento de capital estrangeiro propagandeado pelo governo militar como necessário para desenvolver a Amazônia.

Por que conto essas histórias, tão pouco afeitas, aparentemente, às finalidades deste blog? Porque me surpreendo com as dificuldades para a circulação de informações em plena democracia no Brasil.

Criei este espaço para que empregados da Vale pudessem participar de um debate franco e sério sobre a empresa. Para que também se expressassem moradores das áreas nas quais a poderosa companhia atua. Para que criássemos um contracanto ao canto orquestrado pela Vale e seus parceiros, que tantos dados nos sonegam. Para que pudéssemos reunir informações suficientes para uma avaliação dos 15 anos de privatização da estatal do minério, no próximo dia 15 de maio.

Não sei o que acha o leitor, mas temo que esse debate fértil e denso não vá se estabelecer. Dizem os céticos (ou iniciados) que isso é impossível via internet. Esta é uma mídia da rapidez e da superficialidade, refratária à análise e à reflexão. Será?

Fica minha dúvida. E minha esperança contra ela.

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1 comentário

Arquivado em O que Lúcio nos diz

Uma resposta para “O silêncio da democracia

  1. Marly Silva

    Lúcio ,
    Creio que a questão inicial que vc coloca relativa à discriminação ( nem sempre sutil) imposta pelos militantes de esquerda aos classificados como “não militantes” é pertinente .Somos de uma geração que viveu isso na pele . Sempre fui refratária à militância politico-partidária por achar estranhissima a estrutura leninista dos partidos de esquerda dos quais estive muito proxima ao participar de diferentes movimentos sociais e populares nos seus momentos mais ricos e vibrantes .Nós , tidos como independentes ou apartidários , de alguma forma ficávamos à margem e tinhamos que lutar para não sermos engolidos ou cooptados . Mas o que é a democracia , senão, luta , luta e luta sempre ! pela liberdade politica pela emancipação politica , pela radicalidade da transformação ?
    Quanto à questão da receptividade ou não ao diálogo sobre a privatização da Vale ou qualquer outro tema sério , creio reside no medo ou não se de expor .Neste sentido tem a ver sim com a tecnologia não pela razão da “rapidez ou superficialidade ” mas sim pq o sistema de comunicação virtual escancara , expõe o interlocutor ; qualquer um em qualquer lugar conectável pode ler o que vc disse , inclusive o seu chefe imediato , os seus desafetos , os seus inimigos , reais ou imaginários . Creio que mesmo para as pessoas que usam pseudônimos ou que se mantém anônimas sofrem algum tipo de temor , de receio de serem identificadas . Caso contrário , não haveria tantos anônimos ! As vezes me impressiona ver em sites muito frequentados pouquissimos nomes proprios . Não vejo nenhum problema no anonimato para a comunicação em si desde que se mantenha o respeito com as pessoas ; o problema , ao meu ver , está na própria pessoa em ter que se proteger de alguma forma e , no limite , se calar , silenciar o que gostaria e poderia dizer . E se são muitas que sofrem desse mal é pq deve haver um determinante forte , socialmente falando . Não sei , é uma impressão imediata . Nunca parei para refletir mais à fundo sobre isso . Mas acho que o excesso de exposição que temos hoje , quando as pessoas , sobretudo os jovens por pressões proprias ao grupo e à idade se vêem induzidas à se expor , deve produzir medos , paranóias , receios . Mas isso é matéria para psicólogos e psicanalistas ! Quanto aos profissionais do conhecimento , aos intelectuais que detem o poder da informação qualificada neste campo da mineração , seria bom dirigir-lhes a interrogação : pq não participam ?
    Abraços
    Marly Silva

Manifeste solidariedade

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