Sai nova tiragem do dossiê da grilagem e um novo sobre a justiça do Pará

Vem aí mais uma tiragem do dossiê Grilagem: a pirataria nas terras da Amazônia, do jornalista Lúcio Flávio Pinto. A primeira, de mil exemplares, já está quase esgotada nas bancas de Belém do Pará. Os leitores que não conseguiram adquirir a publicação terão essa oportunidade a partir do próximo fim de semana. O dossiê custa R$ 10.

Nesse trabalho, o jornalista refaz toda a história da grilagem de 5 milhões de hectares na região do Xingu, no Pará, pela empresa C. R. Almeida, de Cecílio do Rego Almeida, e de como isso foi possível. Apresenta documentos, as decisões da Justiça, notícias veiculadas nos jornais brasileiros, entre outras fontes. Sobretudo mostra ao leitor como a Amazônia tem sido, historicamente, alvo de saques, como se isso fosse uma condição.

“Se a ditadura foi a arma usada, nas décadas de 60 a 80, pelos que devastaram o Araguaia, a democracia não tem sido fator de inibição para os que estão agindo como autênticos piratas no Xingu desde a década de 1990. Atuam se apropriando ilicitamente de terras públicas, através dos processos de grilagem, ou extraindo clandestinamente as preciosas árvores de mogno. As grilagens são medidas em centenas de milhares de hectares, ou até de alguns milhões. A extração de madeira se exibe no tétrico espetáculo de milhares e milhares de toras formando jangadas ao longo do Xingu e de alguns dos seus afluentes.

A pergunta perturbadora diante dessa situação é: por que a sociedade não reage? E por que, quando eventualmente esboça uma reação, ela não é eficaz? Ou ainda: por que os ladrões de terras e de madeiras são bem-sucedidos?”, questiona o jornalista.

Esse dossiê é um documento fundamental para quem quer conhecer a relação colonialista estabelecida na região e que se desdobra em violência e pobreza. Violência inclusive contra quem denuncia esses esquemas, como o próprio jornalista Lúcio Flávio Pinto, condenado em 2005 a pagar uma indenização ao empresário Cecílio do Rego Almeida, que o processou por ter sido chamado de “pirata fundiário” em uma das edições do Jornal Pessoal. O empresário já é falecido e o processo foi levado adiante por seus herdeiros.

O paradoxo nesse fato foi a justiça paraense ter anulado o registro da suposta propriedade em novembro de 2011, movida pelas denúncias do jornalista, que se mostraram verdadeiras. Mas Lúcio permanece condenado.

Novo dossiê e novo JP – Lúcio Flávio também vai levar às bancas, no fim de semana, outro dossiê: Justiça do Pará: Eu acuso!, sobre a polêmica envolvendo o jornalista e o juiz que o condenou em 2005, Amilcar Guimarães. No fim de fevereiro, o magistrado fez declarações em sua página pessoal no Facebook, abordando aspectos do processo que resultou na condenação do jornalista. O juiz xingou Lúcio Flávio e ainda sugeriu que este o denunciasse ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), para que ele recebesse a aposentadoria como benesse. As declarações repercutiram na internet e na grande imprensa nacional.

O título do novo dossiê é uma alusão direta ao artigo escrito pelo romancista francês Émile Zola, J’Accuse, em 1898, apontando os envolvidos no chamado Caso Dreyfus. Em 1894, o oficial francês, de origem judaica, Alfred Dreyfus foi condenado à prisão perpétua, por alta traição, em um processo sigiloso, cheio de erros e que se revelou uma fraude. Zola foi um dos raros intelectuais que se insurgiram contra a decisão judicial, por muitos anos, uma ferida na história política francesa. Em 13 de janeiro de 1898, ele publicou o manifesto no jornal Aurore. Veja o texto completo no fim desta postagem.

E o número 509 do Jornal Pessoal estará nas bancas semana que vem, em edição regular. Aguardemos as manchetes.

***

J’Accuse| Eu Acuso

Émile Zola

J’accuse le lieutenant-colonel du Paty de Clam d’avoir été l’ouvrier diabolique de l’erreur judiciaire, en inconscient, je veux le croire, et d’avoir ensuite défendu son œuvre néfaste, depuis trois ans, par les machinations les plus saugrenues et les plus coupables.

Eu acuso o tenente-coronel du Paty de Clam de ter sido o artífice diabólico do erro judiciário, inconscientemente, quero crer, e de ter em seguida defendido sua obra nefasta, durante três anos, através de tramas absurdas e culpáveis.

J’accuse le général Mercier de s’être rendu complice, tout au moins par faiblesse d’esprit, d’une des plus grandes iniquités du siècle.

Eu acuso o general Mercier de ter-se mostrado cúmplice, ao menos por fraqueza de espírito, de uma das maiores injustiças do século.

J’accuse le général Billot d’avoir eu entre les mains les preuves certaines de l’innocence de Dreyfus et de les avoir étouffées, de s’être rendu coupable de ce crime de lèse-humanité et de lèse-justice, dans un but politique et pour sauver l’état-major compromis.

Eu acuso o general Billot de ter tido nas suas mãos as provas certas da inocência de Dreyfus e de tê-las abafado, de se tornar culpado deste crime de lesa-humanidade com um objetivo político e para salvar o Estado-Maior comprometido.

J’accuse le général de Boisdeffre et le général Gonse de s’être rendus complices du même crime, l’un sans doute par passion cléricale, l’autre peut-être par cet esprit de corps qui fait des bureaux de la guerre l’arche sainte, inattaquable.

Eu acuso o general de Boisdeffre e o general Gonse de serem cúmplices do mesmo crime, um sem dúvida por razão clerical, o outro talvez devido a esse espírito corporativista que torna os gabinetes de guerra em arcas santas, inatacáveis.

J’accuse le général de Pellieux et le commandant Ravary d’avoir fait une enquête scélérate, j’entends par là une enquête de la plus monstrueuse partialité, dont nous avons, dans le rapport du second, un impérissable monument de naïve audace.

Eu acuso o general de Pellieux e o comandante Ravary de terem feito uma sindicância rápida, e quero com isso dizer uma sindicância da mais monstruosa parcialidade, onde temos, no relatório do segundo, um monumento indestrutível de audácia ingênua.

J’accuse les trois experts en écritures, les sieurs Belhomme, Varinard et Couard, d’avoir fait des rapports mensongers et frauduleux, à moins qu’un examen médical ne les déclare atteints d’une maladie de la vue et du jugement.

Eu acuso os três especialistas em grafologia, os senhores Belhomme, Varinard e Couard, de terem redigido relatórios mentirosos e fraudulentos, a menos que um exame médico os declare doentes de algum mal da vista e de julgamento.

J’accuse les bureaux de la guerre d’avoir mené dans la presse, particulièrement dans L’Éclair et dans L’Écho de Paris, une campagne abominable, pour égarer l’opinion et couvrir leur faute.

Eu acuso os gabinetes de guerra de terem liderado na imprensa, particularmente no L’Éclair e no L’Écho de Paris, uma campanha abominável para distrair a opinião e cobrir seu erro.

J’accuse enfin le premier conseil de guerre d’avoir violé le droit, en condamnant un accusé sur une pièce restée secrète, et j’accuse le second conseil de guerre d’avoir couvert cette illégalité, par ordre, en commettant à son tour le crime juridique d’acquitter sciemment un coupable.

Eu acuso enfim o primeiro Conselho de Guerra de ter violado a lei ao condenar um acusado apoiado em uma peça de acusação mantida secreta, e acuso o segundo Conselho de Guerra de ter encoberto esta ilegalidade, sob ordem, cometendo também o crime jurídico de inocentar sabidamente um culpado.

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2 Comentários

Arquivado em O que Lúcio nos diz

2 Respostas para “Sai nova tiragem do dossiê da grilagem e um novo sobre a justiça do Pará

  1. Marly Silva

    Isso é só o avant-gout !
    Vem aí a queda da Bastilha e , ato seguinte , a instalação da Comuna de Belelém ! Quando foi mesmo minha gente da Historia …Hummmm, deixa eu pensar , já sei , acho que foi dia 18 e março; i gente , 18 de março já é no proximo domingo . aí, aí, ai , a Corte precisa ugentemente chamar os serviçais para preparar as carruagens , selar os cavalos …
    MS

  2. José Carlos Gondim

    Compartilhei no meu perfil do Facebook. Vale pelo meu comentário também no compartilhamento. Enfim, chegamos nas entranhas do bicho Judiciário, a vara curta é perigosa mas dá pra cutucar… Força e vamos em frente, como diz “o outro”, a luta só começou.

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