Manifestos de Solidariedade: Rosaly de Seixas Brito

O blog publica, a partir de hoje, escritos e imagens que trazem reflexões sobre comunicação, direito e assuntos correlatos a partir da experiência do jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto na Amazônia. Começa com este artigo de Rosaly de Seixas Brito, jornalista e professora da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará. O texto foi lido por ela durante o ato de solidariedade ao jornalista realizado na última terça-feira, 6, no auditório do Ministério Público Federal do Pará, em Belém. Todas as publicações ficarão disponíveis no blog, no menu Somos Todos Lúcio Flávio Pinto.

CONDENAÇÃO DE LÚCIO FLÁVIO PINTO

Controle da informação e neobarbárie na Amazônia

Rosaly de Seixas Brito

Professora e jornalista da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará

Quando tomei conhecimento da sentença que condenou o jornalista Lúcio Flávio Pinto por ter denunciado em seu jornal o maior grileiro de terras do país, Cecílio do Rego Almeida, e em seguida fui convidada a participar deste ato, imediatamente me veio à memória de forma muito viva outro ato de desagravo quase idêntico a este de que participei, há exatamente sete anos, em janeiro de 2005, em função da agressão física desferida então contra Lúcio pelo diretor corporativo das Organizações Romulo Maiorana, Ronaldo Maiorana, no Restô do Parque, fato que deixou a cidade estupefata, em uma sexta-feira de triste memória.

Hoje o agressor é outro, mas não resta dúvida de que a motivação é exatamente a mesma: a tentativa de calar uma das vozes mais qualificadas, contundentes e singularmente representativas dos interesses da maioria da população da região amazônica que, todos sabemos, historicamente tem sofrido todas as formas de espoliação.

Seja pelas riquezas naturais saqueadas, seja pela adoção de um modelo de desenvolvimento que privilegia os interesses das elites locais, nacionais e internacionais, ou pela distorcida imagem da região que circula nos aparatos da indústria global da mídia, em que a Amazônia é mostrada como um lugar anacrônico e de populações invisíveis – ou, o que é quase a mesma coisa, despreparadas para gerir sua própria história –,  a região amazônica, pela sua importância na geopolítica global, é, sem dúvida, um dos alvos preferenciais das diferentes formas de exclusão promovidas pelo capitalismo desde o pós-guerra.

O triste e insano episódio que presenciamos agora, em que Lúcio Flávio foi condenado a indenizar quem roubou as terras do povo amazônico, traduz de forma inequívoca os desmandos e a inversão de valores que predominam no Estado brasileiro. Os que andam dentro da lei e defendem os interesses da cidadania são punidos, enquanto os que afrontam a lei e atentam contra os interesses da sociedade ficam à solta e realimentam em benefício próprio, à sombra da impunidade, um ciclo de práticas criminosas que parece não ter fim.

Trata-se de uma maldita herança da cultura política autoritária brasileira que remonta a nosso passado colonial, fortemente enraizada no clientelismo, no coronelismo, na visão patrimonialista do Estado, tratado como propriedade privada das elites. E que, já no período republicano, debilitou ao extremo a – ainda hoje tão frágil – democracia brasileira.

Outro aspecto a debilitar a democracia no Brasil, diretamente ligado ao que denunciamos aqui hoje, é o modo como operam os sistemas de mídia brasileiros. A despeito do que prevê nossa Constituição, no artigo 220 do parágrafo 5º — “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”- o padrão de propriedade dos meios no país, com sérias implicações sociais e culturais, é francamente monopolístico. Poucas redes controlam a comunicação no país e sobre elas existe pouca ou nenhuma regulação por parte do Estado.

A exigência de instantaneidade, a velocidade na produção da notícia, a saturação de informações que marcam a época contemporânea, entre outros, reduzem as chances de construção de uma cultura pública e de uma cidadania emancipada, já que a informação é controlada por poderosas corporações multimídias no Brasil e no mundo, que figuram hoje entre as mais lucrativas da economia global.

Por isso mesmo, como sentencia o respeitado pesquisador da área da comunicação Muniz Sodré[1], “a nova face da imprensa no capitalismo avançado acarreta mudanças tão profundas que põe em risco a própria existência do jornalismo”. Segundo ele, a atenção do consumidor é a mercadoria mais valiosa para os grupos de mídia nesses novos tempos. Mesmo quando estamos no plano da gratuidade do acesso, esta gratuidade corresponde à estratégia de mercado para disputar o coeficiente de atenção e, com isso, atrair investidores publicitários.

Na internet, em especial, conforme o autor, as informações jornalísticas estão visceralmente associadas ao marketing e cada vez mais os grupos do setor apostam na tendência de migração dos conteúdos do jornal em papel para o ambiente online. Os interesses econômicos que presidem hoje a lógica de produção da informação, transformando-a em mercadoria, tornam muito tênue a fronteira entre o jornalismo e o entretenimento, e relativizam os critérios de aferição do que é verdade e do que é mentira, imperativos clássicos do jornalismo.

É justo nesse cenário de embaçamento de fronteiras entre o fato e a ficção, entre a verdade e a mentira, que o jornalismo praticado por Lúcio Flávio Pinto constitui um grande diferencial. Por isso suscita tanto ódio e sentimento de revanche, a ponto de por várias vezes quererem calá-lo no braço, na base da agressão física. Porque pela riqueza de fontes e de fatos incontestes de que se vale é uma forma de jornalismo “incômoda” na Amazônia e no Brasil contemporâneos. Coloca o dedo na ferida dos poderosos e, quanto mais fere seus interesses, mais será atacado, em uma relação de causa e efeito, por essa ótica tortuosa.

Os achincalhes e a forma cínica com que o juiz Amílcar Guimarães se manifestou em seu facebook a respeito deste episódio, admitindo com todas as letras as deformações do judiciário brasileiro, é uma peça que ilustra muito bem esta espécie de neobarbárie que estamos vivendo na Amazônia e no Brasil.

A ela respondemos com a força da nossa indignação e da nossa capacidade, sempre invencível quando queremos, de marchar na contramaré e fazer valer o contrapoder. Por isso é tão importante estarmos aqui hoje. Espero que sigamos inarredáveis e não capitulemos. Não somente para defender um jornalista tão valoroso quanto o Lúcio, mas principalmente para defender a forma de jornalismo em que acreditamos e nosso direito inalienável à informação socialmente relevante.

[1] Em entrevista concedida no dia 19/12/2007 ao site do ANDES- Sindicato Nacional dos Docentes de Ensino Superior. Disponível em http://antigo.andes.org.br/imprensa/ultimas/contatoview.asp?key=4939

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3 Comentários

Arquivado em Manifestos de Solidariedade

3 Respostas para “Manifestos de Solidariedade: Rosaly de Seixas Brito

  1. Marly Silva

    Carissima ,

    Vou mais além. Penso que a grande imprensa no Pará chegou a um ponto de inflexão , negação do jornalismo pela imposição da empresa publicitária do espetáculo non sense , abaixo do qual é impossível descer ! É como a temperatura negativa de um inverno tenebroso que a partir de um certo grau negativo na escala , já não se sente a menor diferença. E a insatisfação do público jovem é muito grande com este fenômeno . Dou o meu testemunho.
    Durante 10 anos consecutivos de aplicação de sondagem de classe – para fins de mera rotina pedagógica – em disciplinas por mim ministradas junto à estudantes de 11 cursos de graduação da UFPA ( ciências sociais , direito , arquitetura , administração , turismo, serviço social, filosofia , geografia , história , química industrial e farmácia ) constatei que 95,64% definiam O Liberal e o Diário do Pará como “sensacionalistas” , “pouco informativos “ e muito focados em “propaganda” e “anúncios ” .A sondagem em formulário de três páginas não era induzida .No ítem “leituras ” , os estudantes eram instados a citar de próprio punho os jornais que liam e a respectiva frequência semanal ou mensal e opinar brevemente sobre o conteúdo dos mesmos . O curioso é que , ao contrario do que acredita o juiz Raimundo das Chagas que na sua sentença revelou não conhecer nada da juventude universitária paraense , o LFP não tem nada a ver com a avaliação que fazem os estudantes dos grandes jornais , já que apenas 1,7% deles declararam ser leitores do JORNAL PESSOAL . No mesmo item “leituras” , mas agora de livros , a resposta da sondagem foi zero . Nenhum estudante leu seus livros .Um sequer ! No comentário do resultado das sondagens disseram também nunca terem ouvido falar do jornalista. Foi o resultado desta sondagem que me levou a programação dos 20 anos do JP no Vadião , em 2007 , no qual você esteve presente como também a atual presidente da FUTELPA , Adelaide Oliveira . Achei que o mínimo que eu poderia fazer para levar um pouco de otimismo aos estudantes quanto ao papel informativo e questionador do jornalismo na sociedade era apresenta-los ao Lucio e ao JP. O quem me surpreendeu nesta sondagem foi o desconhecimento do jornal , do jornalista e do escritor , afinal , estes estudantes , a maioria recém-ingressos , fazem no ensino médio cursos de historia , geografia, estudos sociais . Fiquei me perguntando sobre os seus professores nessas disciplinas . Por que não adotam um livro sequer do Lucio ¿ Há explicação mais didática e precisa do que seja o Projeto Jari do que a sua publicação Jari : toda a verdade sobre o projeto de Ludwig ¿ Há melhor introdução ao tema dos “grandes projetos “ na Amazônia do que a sua coletânea inaugural “ No rastro do Saque “ , cujo nome já diz muita coisa sobre os piratas latifundiários ¿ Lucio foi quem primeiro escreveu sobre grandes projetos usando este termo , justamente em matéria publicada no livro No Rastro do Saque .Se eu estiver enganada corrija-me , por gentileza.
    Logo , uma AÇÃOZINHA SINGELA , poderia ser feita por jornalistas & professores nesta campanha de defesa do jornalista : Pegar , aos DOMINGOS , um bocado de seus livros , que caiba em cada uma das duas mãos e levar para a Praça de modo a contribuir para divulgar seu trabalho junto a estudantes e pessoas comuns e diminuir também a ignorância que ainda faz esta Amazônia sangrar . É só começar !!!!
    abraços
    Marly Silva

  2. MARLY SILVA

    Rosaly ,
    Todos que já nos manifestamos nesta tribuna popular que é o blog , concordamos que o jornalismo que o Lucio faz é indispensavel .A interrogação que me faço é porque ele é o único no Pará , pq outros jornalistas não fazem esta escolha se reconhecem que essa é a escolha certa .Se o fizessem ele não seria o ‘bloco do eu sozinho ‘, logo mais suscetível a tantos ataques …
    abraços
    Marly Silva

    • Rosaly Brito

      Concordo inteiramente, Marly, com o que dizes. Para mim, o fato de ele ter se tornado uma voz isolada no jornalismo paraense só denuncia o empobrecimento da qualidade do jornalismo praticado no Estado, em especial nos jornais da grande imprensa que, sabidamente, deixam-se pautar pelos interesses dos anunciantes, dos seus proprietários ou dos poderosos a eles aliados. Aliado a isso, creio, há uma enorme acomodação por parte dos profissionais de imprensa aos padrões editoriais vigentes. Pouquíssimos são os profissionais, que eu saiba, que ousam afrontar a linha editorial, ou pelo menos questioná-la. Com isso, constitui-se um círculo vicioso difícil de ser rompido. Por essa razão, sobressai tanto o tipo de jornalismo que Lúcio Flávio faz.
      Abs,
      Rosaly Brito

Manifeste solidariedade

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