Contra a Injustiça: Ato público em solidariedade a Lúcio Flávio Pinto foi realizado na terça

“Eu sei que estou me expondo e assumo os riscos, porque sei que vocês vão se expor também. Repito aquele verso hindu: ‘se eu não queimo, se tu não queimas, quem romperá as chamas?’”, declarou Lúcio Flávio Pinto na noite desta terça, 6, em evento realizado pela sociedade civil como manifesto público em sua defesa.

Belém, 7 de março de 2012 – Um movimento da sociedade civil, iniciado pela internet há algumas semanas, lotou na noite de terça-feira, 6, o auditório da Justiça Federal em Belém, quando jornalistas, estudantes, pesquisadores, professores universitários e profissionais liberais se reuniram para debater a perseguição judicial sofrida  há pelo menos 20 anos por Lúcio Flávio Pinto, editor do independente Jornal Pessoal, cuja versão impressa circula na capital do Pará.

O evento, inicialmente previsto para acontecer em uma sala do Ministério Público Federal, foi transferido para um auditório maior por conta do número de participantes, bem acima do esperado pelos organizadores.

Entre outros desdobramentos, foi anunciado na ocasião o lançamento, na internet, de dois abaixo-assinados destinados a pressionar o poder público e o Conselho Nacional de Justiça, para a revisão do caso do jornalista, condenado a pagar indenização à família do falecido empresário Cecílio do Rêgo Almeida. Ao processar o jornalista, Almeida , falecido em 2008, argumentou ter se sentido “ofendido moralmente” ao ser tratado como “pirata fundiário” em reportagem que denunciou um gigantesco esquema de grilagem de terras públicas na Amazônia.

Lúcio se tornou foco da solidariedade popular ao noticiar, em meados de fevereiro, a negativa do Supremo Tribunal de Justiça de reapreciar o processo, mesmo que o crime tenha sido posteriormente comprovado pelas próprias organizações estatais.

O caso aumentou ainda mais a insatisfação pública após a repercussão de um texto publicado no Facebook no último domingo, 4, por meio do qual o juiz Amílcar Guimarães, responsável pela expedição da sentença, atacava verbalmente o jornalista, que colocou o Tribunal de Justiça do Pará sob suspeição ao desistir de recorrer à sentença. Entre os pontos, o juiz define o réu por termos ofensivos como “bestalhão”, “pateta”, “canalha”, “otário”, “babaca” e o desafia a fazer denúncia junto ao Conselho Nacional de Justiça: “Eu quero me aposentar. bem que esse otário do LFP poderia fazer uma recamação (sic) no CNJ. Juro que não me defento (sic)”.

No mesmo dia do debate, o juiz também declarou à Folha de São Paulo, jornal de circulação nacional, ter expedido a condenação sem conhecer os autos do processo.

“Eu provei que ele (Cecílio do Rego Almeida) era um grileiro, provei que o juiz (Amílcar Guimarães) não tinha mais identidade física com o processo, que o fraudou e agora também diz que não leu os autos. E não leu mesmo e disse isso na declaração que fez à corregedora geral de Justiça do Estado naquela época. Por que o Tribunal não tomou nenhuma posição? Porque não apenas o Tribunal queria servir ao grileiro – ele não atendeu ao grileiro, que não pediu isso a ele, apenas o favoreceu com a decisão -, mas porque o Tribunal não aceita críticas, não aceita fiscalização e se considera acima do bem e do mal”, pronunciou o jornalista aos presentes, ao justificar a decisão de não recorrer à sentença, pedindo a nulidade do processo, conforme apelo dos procuradores federais Felício Pontes e Bruno Valente.

Sua decisão teria como base a necessidade de fomentar um movimento político, destinado a confrontar as arbitrariedades do Judiciário estadual não apenas pelo seu caso, mas por todo o histórico de impunidade e tratamento desigual, baseado no privilégio de elites econômicas e políticas locais em detrimento do interesse público e do conjunto da sociedade: “Quando eu decidi não recorrer mais, seja no próprio STJ, seja de volta ao TJE-PA, eu decidi transformar o meu caso num caso público, colocar esse tribunal desnudo diante da sociedade. O que eu sou na figura da lenda? Eu sou a criança que disse ‘o rei está nu’. E o rei estava nu – e todo mundo dizia que o rei estava maravilhosamente vestido”.

Emoção – No decorrer das manifestações de apoio, uma chamou especial atenção. O depoimento emocionado da filha mais velha de Lúcio Flávio Pinto, Juliana Pinto, que ainda criança ouviu ameaça de morte por telefone no lugar do pai, abordou as sucessivas injustiças cometidas contra o jornalista por grupos poderosos locais. A filha caçula de Lúcio, Mariana, também esteve presente ao ato. O jornalista é pai de quatro filhos ao todo.

Juliana agradeceu toda a mobilização recente da sociedade civil e questionou como transformar esse esforço comum e indignado em poder político de fato, em proteção ao trabalho feito por seu pai e em direito efetivo à informação de qualidade. “Não quero perder o meu pai. A minha vida toda o vi trabalhar para mostrar o que é justo, bom, correto, dedicar-se a registrar a história e em benefício da sociedade”, apelou a filha para não ter o pai condenado como mais um mártir em defesa da Amazônia.

Também estiveram presentes no auditório companheiros da missionária Dorothy Stang, cujo assassinato brutal no interior do Pará, em 2005, foi ironizado pelo juiz Amílcar Guimarães, que classificou  Lúcio Flávio Pinto como “a irmã Dorothy do jornalismo”.

“Não podemos aceitar essa visão cínica”, pontuou o jornalista após ouvir a declaração emocionada da filha, relembrando a morte do sindicalista acreano Chico Mendes, vítima de mais uma tragédia anunciada na Amazônia. “Quantos Chico Mendes morreram no Pará sem virar notícia?”, completou.

Foto: Lucivaldo Sena

Anúncios

6 Comentários

Arquivado em Ação coletiva

6 Respostas para “Contra a Injustiça: Ato público em solidariedade a Lúcio Flávio Pinto foi realizado na terça

  1. Osman Patzzi

    Solidaridad plena con Lúcio Flávio Pinto. Contra la injusticia, y por la lucha para que las ideas puedan manifestarse sin mordaza. Por una causa justa y lo que representa para muchas personas en todo el mundo. Por la libertad, por el derecho a opinar sin censura previa, para que la autocensura no sea una opción.

  2. Armando Avellar

    A condenaçao atribuida ao Lucio Flavio Pinto, reconhecendo seu trabalho de jornalista e sua personalidade de cidadao consciente e conhecedor dos fatos na sua origem, conduz “a conclusao de que e punido porque defende a verdade dos fatos.

  3. Gert

    Prezado(a)s;
    Aqui em Florianópolis, no sul da ilha, a CR ALMEIDA pretende eregir um mega-empreendimento em cima de uma área inundável, de Mata Atlântica, restinga alta e banhado, contrariando frontalmente a lei. Nossa resistência é a mesma de Lúcio Flávio, a perseguição política é a mesma. Porque sentimos na pele o poder da máfia que estamos enfrentando também aqui no sul do país, nos solidarizamos a ele e a todo(a)s que estão alinhados com as bandeiras da democracia, da ecologia, da transparência do Estado, da cidadania, acima de tudo.
    Saudações ecológicas,
    Gert Schinke – Coordenador Geral da FEEC – Federação das Entidades Ecologistas Catarinenses

  4. graça pena

    A solidariedade é um gesto de entendimento, ou seja, compartilhar com o sentimento do outro, apoio e compreensão, é dividir o problema, portanto estou solidaria ao Lucio Flavio Pinto, no fato que esta enfrentando.

  5. PSTU publica nota de apoio ao jornalista Lúcio Flávio Pinto http://blogpstupa.blogspot.com/

  6. Marco Barros

    Amigos(as), foi incrível a reunião de ontem parecia realmente uma assembléia de resistência da época da ditadura. Saí de lá impactado e, acordei comovido, por ver uma pessoa com uma obra e atitudes tão importantes para a sociedade mundial está sendo molestada pelos donos do poder. O trabalho de Lúcio é parte visceral da minha vida.Seu jornal de maneira inteligente, revela situações óbvias, para pessoas de bem ou de bom senso. Entretanto feri a honra dos piratas, os saqueadores, os donos do poder do Brasil democrático. Vamos juntos fazer valer o jargão de que somos um país democrático. Marco Barros

Manifeste solidariedade

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s