Ihu on line publica entrevista especial com Lúcio Flávio Pinto

Nesta segunda, 27, o website do Instituto Humanitas Unisinos (Ihu on line) publicou uma entrevista especial a partir da qual Lúcio Flávio Pinto explica o paradoxo de sua condenação: ”No Pará não apenas o grileiro consegue se apropriar das terras públicas, como ainda se precisa indenizá-lo quando se denuncia”.

Confira abaixo o texto de apresentação e clique aqui para ler a entrevista na íntegra:

Imagine a cena. Você é jornalista e decide usar seu trabalho para denunciar um empresário que se considerou dono de uma terra pertencente ao patrimônio público. O fato é comprovado judicialmente. No entanto, o empresário usa o poder financeiro para deixar claro que não gostou de uma expressão utilizada em sua denúncia. Você é processado por danos morais ao tentar esclarecer a opinião pública e defender o patrimônio nacional. E o pior: você é condenado pela justiça a indenizar o grileiro ofendido. Resumidamente, este é o caso real do jornalista Lúcio Flávio Pinto, que concedeu a entrevista a seguir, por telefone, para a IHU On-Line, relatando detalhes do processo do qual é vítima.

Durante um longo percurso, ele afirma que só perdeu para a justiça. “Desde 1992 venho sofrendo processos por pessoas que não têm a mínima preocupação em esclarecer o público, que não exercem o direito de resposta e que encontraram no poder judiciário um cúmplice, para me impedirem de continuar a exercer o jornalismo, o que eu faço há 46 anos. Então, era o limite. E resolvi não recorrer dessa decisão”, desabafa, ao assumir o que tem pela frente. “Estou perfeitamente consciente: vou pagar o preço por tentar mobilizar a sociedade, por tentar fazer com que ela perceba que não é um problema individual, mas um problema social grave o que eu estou enfrentando”. Afinal, resume, “no Pará não apenas o grileiro consegue se apropriar das terras públicas, como ainda se precisa indenizá-lo quando se denuncia”. E o jornalista enfatiza: “o Tribunal se transformou em um lugar onde os criminosos estão conseguindo ganhar. Ninguém provou que o que eu disse era mentira, mas eu sou condenado. Não me deixam o direito de provar”. Ao final da entrevista, ao ser questionado se gostaria de acrescentar mais algum comentário ao debate, Lúcio Flávio exclamou: “socorro”. Foi uma brincadeira, mas que reflete o sentimento deste cidadão brasileiro.

Jornalista profissional desde 1966, atualmente Lúcio Flávio (foto) dedica-se ao Jornal Pessoal, informativo quinzenal que escreve sozinho há mais de 20 anos baseado em Belém. No jornalismo, recebeu quatro prêmios Esso e dois Fenaj, da Federação Nacional dos Jornalistas, que em 1988 considerou o Jornal Pessoal a melhor publicação do Norte e Nordeste do país. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection – CPJ, de Nova Iorque, pelas denúncias que tem feito em seu jornal na defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Tem 12 livros publicados, todos sobre a Amazônia, dentre os quais: Hidrelétricas na Amazônia, Internacionalização da Amazônia, CVRD: a sigla do enclave na Amazônia, Guerra amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o poder. É sociólogo, formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

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3 Comentários

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3 Respostas para “Ihu on line publica entrevista especial com Lúcio Flávio Pinto

  1. Marly Silva

    28 de fevereiro. O mal de que padecem os indivíduos que vivem em sociedades fundadas em sistemas hierárquicos de poder – corte, casta, classe, burocracia, seja ela qual for – já foi diagnosticado desde o século XVI pelo jovem filosofo Etienne de La Boétie e se chama servidão voluntária. Isso significa dizer que nós trocamos a nossa liberdade por muitos e muitos privilégios (ou capitais) num continuum que vai se acumulando, se acumulando , se acumulando, até que a perdemos de vista… Mas também a trocamos por privilégios medianos que também vão se acumulando… se acumulando… e, no limite, a trocamos por qualquer merrecazinha! Assim, diz La Boétie, a ambição material, o desejo de ter e também de mando e de prestigio é uma das principais armadilhas que nos aprisionam na rede de poder de todos os tipos de tiranos e tiranias, das mais escancaradas e cruéis às mais sutis e, digamos, “ civilizadas” ou pós-modernas …
    Esta condição servil dos indivíduos, evidentemente, inquieta e revolta qualquer pessoa, como você Lúcio, imbuída de senso de Liberdade com L maiúsculo (e não a tal da liberdade liberal-burguesa) que luta com todas as suas forças para preservá-la, já que nela reside o seu bem mais precioso. Particularmente revolta aquele cuja atividade, trabalho ou função visa justamente favorecer uma coletividade de indivíduos, atuar positivamente sobre o bem-estar público ou a coisa pública, como é o caso do teu trabalho de jornalista militante, na medida em que abraça uma “causa” com entusiasmo, trabalho e muito suor, até que a mesma esteja resolvida, esclarecida para ti mesmo e para o teu público leitor. Tenho apreendido muito com as matérias do JP e lhe sou grata por isso. Mas não basta aprender, é preciso agir a partir deste aprendizado, afinal, o que escreves só se completa verdadeiramente na reação de teus leitores. Desde 2009, com o famigerado processo judicial envolvendo os Maiorana e sua corte, venho percebendo todo o sofisticado domínio técnico que conseguiste alcançar nesta teia intricada do nebuloso campo da jurisprudência aplicada, de modo que chego a sentir vergonha de aulas que já ministrei para estudantes de Direito na UFPA, ainda que eu sempre tenha levado os estudantes a trilhar o caminho da literatura crítica sobre justiça, direito & realidade social que desmonta muitos mitos ainda vivos como o da sublimidade do juiz, cujo corolário mais conhecido consiste na tese de que “sentença judicial não se discute, cumpre-se” e ponto final. O teu caso, que defino como um verdadeiro massacre judicial e político, rolo compressor do poder judiciário mancomunado com os demais poderes contra um cidadão de bem, no sentido de quebra-lhe a espinha dorsal da resistência, atropelando-o, propositadamente, com uma enxurrada de processos de modo a fazê-lo curvar-se perante uma Corte de cúmplices, é um exemplo contundente e avassalador deste mito. E, claro, um exemplo , revoltante e vergonhoso para a história da Justiça brasileira.
    Hoje, 28 de fevereiro de 2012, é data que faz parte dos ritos deste processo kafkiano, importante, portanto , para fazer estes homens pensarem , refletirem seriamente sobre o que eles estão fazendo com você e tantos outros jornalistas, como a combativa blogueira Ana Célia Pinheiro, cidadãos brasileiros conhecidos ou anônimos mas igualmente injustiçados. Afinal, uma Justiça com J maiúsculo tem que ser necessariamente uma justiça reflexiva ou se converterá na sua negação. Vamos ver…

  2. O BLOGUE do Valentim (www.bloguedovalentim.com) também está com Lúcio Flávio Pinto nessa cruzada contra a INjustiça.

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