Dia do repórter: jornalista escreve sobre Lúcio Flávio Pinto

O Lúcio que poucos conhecem

Por Ruth Rendeiro

Eu sou de uma geração que teve o privilégio de ver o Lúcio Flávio Pinto circulando pelas redações de Belém do Pará. Já era um ícone do jornalismo. Respeitado, admirado, invejado, modelo para os que se arriscavam, no final da década de 70, a ingressar no jornalismo, enquanto a ditadura ainda caçava cabeças. A grande diferença é que ele não era perseguido, processado, não corria risco de vida. Grande paradoxo!

Ia diariamente em A Província do Pará. Subia as velhas e barulhentas escadas de madeira cumprimentando desde o “seu” Sandoval, que ficava na portaria, passando depois à Redação para um bom dia geral e algumas conversas mais demoradas, sobretudo com os mais antigos. Eu, uma foca ainda extasiada com aquele mundo que acabara de descobrir, acompanhava tudo ao longe e sem palavras.

Sorridente e jovem, Lúcio depois dirigia-se ao escritório do Estadão, também na Campos Sales. Sempre com um monte enorme de jornais debaixo do braço e alguns livros. No final da tarde quase sempre voltava em A Província. Agora a conversa não tinha hora pra terminar. Pautas do dia seguinte, temas tão complexos eram discutidos com editores e dirigentes da época.

Eu não sabia quem era Lúcio Flávio Pinto. Não tinha a dimensão do que ele já representava para o jornalismo brasileiro e principalmente amazônico. Foi preciso eu ser demitida de A Província (os motivos não interessam agora, mas sempre os considerei injustos) para conhecê-lo e de outra forma. Chorando silenciosamente comecei a enterrar o sonho de um dia ser jornalista. Um encontro casual, justamente na saída do antigo prédio, me levou de volta àquele ambiente que já me contaminara.

– Queres mesmo continuar nesta vida? Ele quis ter certeza.
– Quero sim, respondi emocionada. Não acreditava que ele estava se preocupando com a foca demitida.

Bastou um telefonema e eu atravessei, novamente feliz, a rua João Alfredo e fui bater na porta do recém-criado O Estado do Pará. Não parei mais. Nunca tive outra profissão e há 34 anos vivo de escrever, coletar dados, entrevistar e estudar e nunca mais me distanciei do Lúcio. Não… nunca frequentamos a casa um do outro ou saímos juntos para um drinque, um papo informal, mas sempre o tive como uma pessoa a ser admirada, imitada, preservada, valorizada. Nunca o perdi de vista, mesmo que passe anos sem vê-lo. Meus amigos, colegas de turma e alunos sabem muito bem disso.

Eu o admiro acima de tudo porque é íntegro, firme em suas decisões, acredita no seu ideal, defende seus pontos de vista mesmo que eles signifiquem risco de vida, encara o jornalismo como um sacerdócio, abdica de sua vida pessoal pela certeza de que esta é a sua missão e não se curva, não se vende, não negocia, não escamoteia. E o mais relevante de tudo: não perde a ternura, o sorriso no rosto, a educação serena que é tão evidente em seu caminhar calmo, passos curtos.

Lúcio Flávio não agride, não mata, não rouba, não engana, não machuca ninguém. Usa apenas a força de suas palavras para falar em nome dos que permanecem mudos, os que silenciam por diferentes motivos. Há muito vem sendo penalizado por isso. Não pode sequer sair de Belém. Está em prisão domiciliar sem ter sido condenado.

Felizmente hoje muitos já sabem quem é Lúcio Flávio Pinto e cada dia esse grupo cresce e as pessoas têm menos medo (muitos silenciam porque sabem que tomar partido pode significar retaliações futuras). O mundo descobre um jornalista que o poder tenta calar, mas que a tudo resiste e, mesmo endurecendo, jamais perde a ternura, plagiando Che Guevara.

Temo muito pela integridade física deste jornalista que anda a pé pelas ruas de Belém do Pará, sem seguranças, sem uma arma na cintura. O incômodo que seu pequeno – gigante Jornal Pessoal causa aos que teimam em defender o indefensável, o que de mais sujo existe nos porões do poder, é um risco de vida. Não precisamos de mais Chicos Mendes, mas de pessoas que de fato acreditam que a humanidade ainda tem salvação. 

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7 Comentários

Arquivado em Manifestos de Solidariedade

7 Respostas para “Dia do repórter: jornalista escreve sobre Lúcio Flávio Pinto

  1. Paulo Faria

    me escapou um “s” a mais e aproveito para registrar as inumeras palavras de solidariedade que o Lucio tem recebido online – que tenho lido daqui de sampa. Acredito que isso o estimule a nao desistir, diante de tanta decepçåo. Daqui de Sao Paulo vai todo meu apoio a este irmao digno e que tanto inspira toda a sua familia. E acredito, estimule jovens jornalista de Belém, a um compromisso unicamente com a verdade da noticia e com o seu leitor. Espero em breve colocar essa história num palco de teatro.

  2. Paulo Faria

    Suave e profundo. Conssigo até sentir o perfume de uma época. Belo texto, Ruth. O que é interessante nao perdermos de vista que somos mais numerosos, os homens e mulheres de bem, do que os poucos que tentam nos intimidar e oprimir.

  3. macielsula

    Ele é, sem dúvida, o nosso maior patrimonio intelectual. E um dos nossos mais representativos cidadãos. A nossa geração tem na sua história de jornalista a presença do Lúcio de uma forma ou de outra. A mim ele “deve”, hahahaha, a minha profissão. Entrei no jornalismo pelas mãos do Lúcio, literalmente. Ele era presidente do Sindicato dos Jornalista e a diretoria de ensino promoveu, naquela época, um Curso de Jornalismo. Como o da Federal era muito fraquinho, lá fui eu com a cara e a coragem em busca de novos caminhos. Ali fiquei. De lá fui fazer estágio. Entre no jornal e veio o vício. Quase jubilo na Federal. Não fosse isso, ainda assim, O Lúcio seria presença na vida da gente, fazendo sua peregrinação diária pelas redações de todos os jornais e à pé. Até pouco tempo ele tinha o únco carro velho. Achava um horror ele não mudar de carro, mesmo que fosse por outro velho, mas menos antigo, hahaha. Mas, pra quê carro se ele gosta tanto de andar à pé, não é mesmo? É um cidadino de Belém. A cidade conhece os seus passos. Pessoa integra, corretissima e que a gente gosta. E gosta pelo gostar, somente isso. Sem delonga! Ele vai vencer mais essa. Ah se vai!!!

  4. Edney Martins

    Ruth,
    Obrigado por manifestar muito do que penso e sinto sobre esse grande jornalista e terna figura que é o Lúcio Flávio. Tive a oportunidade de escrever para ele contando como eu, ainda jovem aluno do NPI, fiquei deslumbrado com a apresentação que ele nos fez sobre as eclusas e a importância de tudo aquilo dentro da Amazônia. Garoto que era, senti nas palavras tranquilas daquele jornalista (que bicho era esse?) a imensidão de tudo o que estava em torno de mim.
    Por isso e por muito mais, me meto nessa confusão e sou solidário ao Lúcio, que mostrando essa ferida existente no Pará, lembra tantos outros que tombaram sem solução e que ficaram nas nossas histórias.
    Estamos juntos.
    Abraço,
    Edney

  5. Jorge Reis

    Muito bom, Russ. Muito bom. Ou conhecemos Lucio como colega, amigo, ali pertinho, ou como o Jornalista honrado que é. Um tipo cada vez mais raro, que dá a prioridade à informação de seus leitores.
    O que está acontecendo com ele nesse caso do grileiro, é uma enorme vergonha para todos os Jornalistas que fazem de seu trabalho um compromisso com a sociedade.

  6. Que maravilha, Ruth!

    Você consegue nos dar a dimensão do ser humano, do profissional que é o Lúcio Flávio Pinto e o quanto ele assombra (me assombro também) com sua coragem, inteligência e tenacidade.

    A história dos reveses do Lúcio Flávio diante do sistema judiciário é uma demonstração das fragilidades da nossa democracia, como você tão bem demonstra ao lembrar que esse jornalista não sofreu qualquer retaliação durante a ditadura militar. Não foi processado uma só vez, o que muito nos diz da situação em que vivemos hoje neste país do voto livre, amplo e universal.

    Que escolhas fazemos? Que representantes queremos? De que imprensa precisamos? O que desejamos da democracia em que vivemos?

    Obrigada, Ruth, por seu testemunho.

  7. Ana Prado

    Ruth,
    Ótimo texto, como sempre! E expressa também meu temor, a integridade física do nosso querido Lúcio. Além disso, as repercussões na democracia de decisões similares as que Justiça tem tomado, sobretudo quando se refere ao Jornal Pessoal. Quando costumo dizer que o Brasil engatinha nesse sentido é pq a perplexidade me toma e não consigo pensar direito sobre como nosso país trata alguém que faz jornalismo voltado para o interesse público.
    Mas, a luta continua e o Lúcio vai vencer mais esse desafio/provação.

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